Um panorama entre o esporte para o desenvolvimento integral de crianças e adolescentes, e a inclusão pelo esporte

“O esporte tem o poder de mudar o mundo. Tem o poder de inspirar, tem o poder de unir as pessoas de uma forma que poucas outras coisas conseguem. Ele fala aos jovens em uma linguagem que eles compreendem”

Nelson Mandela

É consenso entre os trabalhos realizados por meio de políticas públicas, iniciativas privadas e Organizações da Sociedade Civil (OSCs), que o esporte é um dos aportes de maior potência quando se vislumbra o desenvolvimento integral de crianças e adolescentes. Não raro, as práticas esportivas merecem capítulo especial em projetos como o Programa Itaú Social UNICEF, cujo objetivo é oferecer formação e fomento para que OSCs aprimorem suas práticas e conquistem bons resultados em seus Planos de Intervenção nos territórios onde atuam, em prol de uma educação integral e inclusiva.

Contribuindo para a reflexão proposta pelo Programa Itaú Social UNICEF sobre os marcadores sociais de raça, etnia, gênero, sexualidade e pessoa com deficiência, elegemos o esporte para ilustrar e, mais do que isso, iluminar o debate. Mas, afinal, em que pé estão o Brasil e as organizações quando traçamos um panorama entre o esporte para o desenvolvimento integral de crianças e adolescentes, e a inclusão pelo esporte? 

Felipe Pitaro

Quem começa respondendo a essa pergunta é Felipe Pitaro, gerente de projetos da Fundação Gol de Letra, empresa sem fins lucrativos da sociedade civil que desenvolve e dissemina práticas e saberes educativos para aproximadamente 1.000 crianças, adolescentes e jovens em um contexto de proteção social em São Paulo e no Rio de Janeiro. “Quando se fala de educação integral, tudo o que se discutiu no Brasil sobre direito, esporte e educação integra a metodologia adotada por escolas particulares. As escolas públicas ainda são vistas de forma muito tradicional, e isso acabou gerando a necessidade de algumas intervenções que pudessem levar a esses espaços a educação integral e a acessibilidade”, aponta Felipe.

Para ele, o esporte é a linguagem mais interessante dentro desse contexto, pois é universal, integrador e capaz de mexer com emoções, trabalhar com planejamento e oferecer perspectiva de futuro para muitos jovens. “Desde a metade dos anos 1990, os esportes ganharam impulso e os projetos começaram a aparecer com mais força. O esporte se configurou como uma ferramenta democrática, completa, plural e passou a ser usado para várias perspectivas para além da atividade física e da ludicidade: saúde pública, assistência social, geração de emprego e renda, proteção e combate à violência, articulação local e democratização do acesso, pois as periferias não têm oferta de esportes diversificada”, destaca Felipe.

Modalidade: esporte educacional

Fábio D’Angelo

Outra iniciativa com a missão de potencializar o desenvolvimento integral de crianças e jovens, o Instituto Esporte e Educação (IEE) amplia o acesso de cidadãs e cidadãos à prática da educação física e do esporte por meio de métodos educacionais e políticas públicas em diferentes territórios brasileiros. Fábio D’Angelo, coordenador pedagógico do IEE, conta da relação íntima entre o esporte e a educação integral: “Nos diferentes espaços onde atua, o esporte é um caminho para a educação integral, pois ele é um mobilizador de aprendizagens em todas as dimensões. O esporte educacional leva crianças e jovens a se desenvolverem não só numa dimensão do fazer, mas também (e principalmente) do saber, do ser e do conviver. Então, se pensar a partir do jogo e da brincadeira, o esporte é um recurso pedagógico muito potente para fortalecer o desenvolvimento da educação integral nas dimensões física, emocional, cognitiva, social, moral e cultural”.

Tanto o IEE quanto a Gol de Letra têm em suas metodologias de trabalho o esporte educacional como fio condutor, e o foco de grande parte dos projetos desenvolvidos não é o rendimento (atlético), mas o desenvolvimento humano e do território. Segundo Felipe, há também uma evolução, fortalecimento e desenvolvimento local por meio do esporte: “Tanto as escolas quanto as ONGs fazem atividades que geram transformação, e o trabalho integral com a escola é fundamental, pois faz parte de um processo de transformação contínua. Esses projetos são, sobretudo, importantes para fortalecer as periferias”.

No trabalho que a Gol de Letra realiza, a modalidade esporte educacional tem como propósito problematizar as questões e situações da vida cotidiana, os problemas sociais aos quais os públicos estão inseridos, para o desenvolvimento de habilidades sociais e esportivas de seus participantes, além do letramento. “Pois como bem disse Paulo Freire, ‘a leitura de mundo precede a leitura da palavra’. É preciso ler o mundo para ler a palavra e, com isso, promover uma transformação social. Então, todos esses elementos permeiam as práticas esportivas: conhecimento, noção de sociedade e coletividade, questões ambientais, equidade de gênero e repúdio à discriminação e à violência”, completa Felipe, da Gol de Letra.

A inclusão pelo esporte

Crédito: IEE – Instituto Esporte e Educação

Tema de constantes debates, mas ainda com poucos avanços no Brasil de maneira geral, a inclusão pelo esporte ainda é vista pelas organizações como um grande desafio, mas algumas delas já não medem esforços e dão fortes braçadas para superar suas próprias marcas. No terceiro setor, o IEE se autodenomina pioneira quando se fala do esporte educacional, inclusivo e seguro. “A contribuição do IEE foi desenvolver, ao longo da sua história, metodologias, jeitos e práticas pedagógicas de ensinar o esporte na perspectiva da inclusão e do respeito à diversidade. Nós conseguimos transcender os discursos e as intenções, e hoje podemos dizer que concretizamos inúmeros projetos e programas que realmente passaram a incluir cada vez mais crianças e jovens no esporte educacional, na prática da atividade física e da educação física com qualidade. Todas as ações do IEE partem de cinco princípios: inclusão de todas e todos, respeito à diversidade, construção coletiva, autonomia e educação integral”, destaca Fábio.

Na Gol de Letra, a educação não é feita (só) por meio de modalidades, mas por projetos temáticos e interdisciplinares. “O esporte é uma ferramenta para que o sujeito viva todas essas vivências, pensamentos, provocações; ele é a base. Dentro da atividade esportiva, as crianças e adolescentes vivem as situações e constroem os seus pontos de vista, têm oportunidade para refletir. Em nossas práticas estamos sempre qualificando as políticas de diversidade, onde buscamos a equidade de gênero e a inclusão para todas as idades, raças e etnias, e envolvemos a diversidade do ponto de vista do capacitismo (discriminação e preconceito social contra pessoas com alguma deficiência). Queremos deixar o legado de boas práticas sistemáticas com o devido respeito a todas as características de públicos”, explica Felipe.

Inclusão é dever de todos!

A OSCIP Mais Diferenças – Educação e Cultura Inclusivas (MD) realiza, há 15 anos, um trabalho voltado para todos os tipos de deficiência e autismo, sob uma perspectiva inclusiva e não só com as pessoas com deficiência. Segundo explica Carla Mauch, coordenadora geral da MD, a entidade atua numa perspectiva de direitos humanos e militância, assessorando na formulação e implementação de políticas públicas de inclusão e na defesa da escola pública. 

Carla Mauch

“Trabalhamos na formação e estruturação da rede pública, na formação de gestores, professores, profissionais de apoio, técnicos e familiares, para preparar e acolher. Desenvolvemos pesquisa, avaliação, sistematização e desenvolvimento de práticas pedagógicas acessíveis e inclusivas, conhecimentos e práticas em projetos, pois entendemos que os recursos de acessibilidade são fundamentais para as pessoas com deficiências, mas não só para elas: são estratégias didáticas para todas e todos, a partir das perspectivas de que existem muitas formas de aprender e ensinar”, conta Carla.

Outro ponto de atenção diz respeito ao processo de implementação de estruturas e metodologias, que segundo Carla, precisa partir da perspectiva de criar já com acessibilidade (e não criar para adaptar). “Não é propor uma prática específica só para a pessoa com deficiência, mas uma que todos possam participar. Para isso, é preciso que essa prática seja múltipla e diversificada. É repensar a lógica da escola, e isso demanda estudo, tempo, disponibilidade, infraestrutura, recurso, interesse. Assegurar isso é de uma potência incrível para o processo de inclusão e acessibilidade, tanto para a pessoa com deficiência quanto para outros públicos e o território. A criação de rampas de acesso, por exemplo, é uma solução que propõe um formato que dá acesso a todos”, exemplifica Carla.

Crédito: Fundação Gol de Letra

O esporte pode ser, de fato, um meio para alcançar a inclusão. Mas o projeto de inclusão deve ser de todas e todos, e é preciso envolver vários níveis da sociedade. Ou o seu potencial de promover acessibilidade pode ser transfigurado para (mais um) ponto de exclusão. 

“O esporte sozinho não consegue ser inclusivo, e jogar a responsabilidade só nas famílias, também não. Dentro das atividades, é importante uma adequação das modalidades e dos públicos, considerar os desafios de mobilidade e deslocamento, além de trabalhar pontos sensíveis como vergonha, constrangimento e falta de informação. Por isso, o esporte precisa de uma articulação intersetorial (liderado pelo poder público) e, principalmente, de investimentos. Isso é fundamental para garantir informação, capacitação, adequação de estruturas, transporte, atendimento social às demandas das famílias, mapeamento das condições em que essas famílias vivem etc., pois uma criança com deficiência precisa de outros apoios e suportes, que muitas vezes as famílias não conseguem atender. Então, é preciso olhar para o todo”, pontua Felipe, da Gol de Letra.

“É mudar a forma de pensar. A interface com a educação e a cultura é muito importante, pois entendemos a importância para a ampliação de repertório de educadores, para trabalhar esse hibridismo das linguagens culturais e da diversificação. Escolas e organizações precisam oferecer possibilidades para o aprendizado de todos. Nossa missão é fazer uma escuta atenta e olhar, para fazer link e mobilizar. E a partir disso, trabalhar as soluções”, complementa Carla, da MD. “Afinal, parafraseando a fala do psicólogo Lev Vygotski, existe a deficiência de quem nasce ou adquire a deficiência, mas se não há investimentos em inclusão, cria-se outras deficiências (secundárias)”, pontua Carla.

[…] a deficiência primária é a que resulta do caráter biológico, a perda da visão, da audição, a lesão na criança com deficiência intelectual, etc… A deficiência secundária ocorre quando a criança com deficiência estabelece a relação com o meio social, ou seja, a deficiência só existe na relação com o social, como um fato social: Em suma, a deficiência por si só não decide o destino da personalidade, mas as consequências sociais e sua realização sociopsicológica […]

Lev Vygotski, 1997

Práticas inclusivas no esporte

Como as OSCs podem adotar atividades esportivas inclusivas e acessíveis:

  • Capacitismo, não! Evite atitudes e expressões que coloquem em questão ou que subestimem a capacidade de outros seres humanos pelo fato de serem pessoas com deficiência. Pessoas com deficiência são seres humanos normais e devem ser tratadas da mesma forma que todos os indivíduos.
  • Deve-se oferecer possibilidades e estratégias para que todos possam acessar, afinal, o esporte não pode se tornar mais uma barreira.
  • Não induzir ao “quem é bom”, “quem não é bom”, “quem é mais isso”, “quem é mais aquilo”.
  • Considerar que o projeto educacional deve ser aceito por todas e todos, com ou sem deficiência.
  • Professoras(es) e formadoras(es) precisam garantir, na ética do trabalho, o foco na aluna e no aluno, e não em rendimento ou conteúdo.
  • Para ter sucesso nas atividades, é preciso garantir uma estrutura mínima para que docentes possam desenvolver seu trabalho, com materiais adequados e adaptação de espaços.
  • É preciso ter consciência de que o desenvolvimento das aulas é um direito para o desenvolvimento das pessoas, portanto, precisa ser construído plenamente: buscar estratégias e conjunto de coisas que levem, de fato, à inclusão.
  • Antes de pensar no esporte, em si, é preciso pensar no direito ao movimento, ao brincar, ao ser e habitar o mundo, se comunicar de formas variadas.
  • Crianças com deficiências, muitas vezes, são vistas só como corpos para serem reabilitados. Mas as crianças são multimodais.
  • É preciso garantir uma oferta de possibilidades de movimentos, brincadeiras, jogos, para todas as crianças.
  • É importante considerar a potência de infinitos movimentos, atividades, interações e proposições, traços, gestos, experimentações, práticas colaborativas e lúdicas.

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