Percurso formativo: um processo de muita aprendizagem, pra quem se despede e pra quem continua

Desde agosto de 2020, 1.529 organizações da sociedade civil (OSCs) de todas as regiões brasileiras estiveram imersas no percurso formativo, primeira fase da 1a edição do Programa Itaú Social Unicef. Em 31 de janeiro de 2021, essa fase foi encerrada, com a entrega dos planos de intervenção, produzidos durante a última estação do percurso. 

Assim, 687 OSCs seguem para a próxima etapa: o processo de avaliação e seleção. Essas são as organizações que entregaram todos os materiais e concluíram todas as atividades das estações 1, 2 e 3 do Percurso Formativo. 

Letícia M. da Silva
Letícia Moreira

“Essa etapa que se encerra foi de extrema importância para o Programa. Nesses quatro primeiros meses, as organizações se envolveram num processo formativo muito intenso. Todo o suporte que demos (por meio dos/as mediadores/as e das lives) e torcida foram para que conseguissem finalizar essa etapa e elaborar o seu plano de intervenção. Ainda que não venham a estar entre as 40 OSCs que serão fomentadas a partir do semestre que vem, enxergamos esse processo como um grande potencial para as instituições, porque elas se organizaram e conseguiram olhar para o seu território, realizar diagnósticos interessantes e agora propor esse plano de intervenção.”

Letícia Araújo Moreira da Silva, coordenadora do Programa pelo Cenpec.
Milena Duarte, coordenadora de Fomento do Itaú Social
Milena Duarte

Das 687 OSCs que seguem no Programa, 40% são da região Sudeste, 28% do Nordeste e 17% do Sul. Já o Centro-Oeste e o Norte estão representados por 9% e 6%, respectivamente.

“A nossa proposta foi bem ousada, e ao longo do percurso nós fomos nos dando conta disso. Nossa agenda formativa tinha um grande volume de atividades, então foi surpreendente esse número expressivo de organizações que conseguiram cumpri-la.”

Milena Duarte, coordenadora de Fomento do Itaú Social. 

Veja aqui a lista das OSCs que seguem no Programa Itaú Social Unicef para o processo de avaliação e seleção


Percurso cheio de aprendizagens

O percurso formativo buscou contribuir para a reflexão das organizações sobre as suas práticas, trajetórias e perspectivas, no sentido de trazer um olhar atento aos seus territórios e ampliar parcerias com lideranças comunitárias, coletivos e outras instituições do entorno.

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Julia Ribeiro

“A proposta de realização do percurso formativo antes da seleção dos 40 planos de intervenção teve o intuito de ampliar o acesso desse conteúdo para um número maior de organizações a fim de fortalecer o trabalho das OSCS no desenvolvimento integral, institucional, articulação com o território e diversidade.”

Julia Ribeiro, oficial de programas do UNICEF Brasil.

Dividido em três estações, o percurso trazia roteiros orientadores e atividades, sempre com a temática da diversidade presente de maneira transversal, estimulando que as organizações tivessem um olhar mais atento aos marcadores sociais de raça/etnia, gênero, sexualidade e pessoa com deficiência no momento de planejar a sua atuação institucional para uma educação integral e inclusiva de crianças e adolescentes.

Elaine Teixeira
Arquivo pessoal

“Muitas OSCs estavam muito acostumadas a construir projetos, em que elas definem uma situação-problema, escrevem e dimensionam a questão do recurso financeiro e do cronograma para colocar aquele projeto em pé. Elas achavam que estavam chegando a um resultado, mas não olhavam a diversidade do seu público, nunca paravam para escutar como os jovens e as crianças observavam esse território e as potencialidades que isso poderia trazer aos encaminhamentos e às atividades da OSC. Quando chegaram à estação 3, em que a proposta era desenvolver um um plano de intervenção sobre as questões abordadas nas atividades das estações I e II, as organizações ficaram bem impactada.”

Elaine Teixeira, mediadora do Programa e especialista em Gestão Pública.

As OSCs tinham como dever entregar produtos resultantes das atividades realizadas nas estações I e II, além do Plano de Intervenção (estação 3), com propostas de mudanças e resultados esperados. 

Para a mediadora Luciana Gomide, a forma como o processo foi construído, com muita flexibilidade e atenção às demandas e dificuldades das OSCs, foi essencial para garantir que as instituições pudessem tirar maior proveito do Programa e se sentir confortáveis para realizar seus processos formativos reflexivos.

 Luciana Gomide
Luciana Gomide

“Na última fase, os participantes tinham questões pontuais de preenchimento dos planos de intervenção. Nós tentávamos acalmá-los, sinalizando que no cronograma quem fosse selecionado teria alguns meses de ajustes. Não houve rigidez tão grande que pudesse eliminar organizações por questões burocráticas ou de preenchimento muito padronizado. O Programa teve muita sensibilidade em entender que algumas coisas poderiam ser revistas – dada a época de incertezas e desafios que estamos vivendo, por causa da pandemia.”

Luciana Gomide, mediadora e jornalista mestra em Letras

Para os(as) mediadores(as), a importância de estimular as OSCs a esse processo de reflexão ficou bastante evidente até mesmo nas situações em que elas não tiveram condições de terminar as atividades no prazo – e, portanto, não seguem mais no Programa. 

Ricardo Paes Carvalho
Ricardo Paes Carvalho

“Não foram poucas as instituições que gostariam de continuar mas não conseguiram, porque estavam enfrentando dificuldades internas da organização. Elas agradeciam, dizendo que a primeira atividade já tinha sido muito boa, o material excelente, que poderia ser usado outras vezes. Então o percurso promovia a transformação nas OSCs que conseguiram mergulhar em sua história, retomar questões antigas, se reconhecer, e trabalhar a parceria no território. Além disso, o compartilhamento de ideias e experiências entre as OSCs foi muito intenso nos grupos de WhatsApp. Apesar de estarem em uma competição, elas estavam apoiando umas às outras. Foi um processo catártico e muito maravilhoso de cada organização.”

Ricardo Paes Carvalho, mediador e cientista social atuando há 22 anos na área social.

Confira a seguir o depoimento de uma OSC participante

Guaraciara Lopes, presidente da Casa da Criança e do Adolescente

“Tivemos um problema no começo do percurso, porque o financiamento de dois programas que existiam desde 2009 se encerrou de forma abrupta, sem terem nos avisado que não haveria renovação. Dos nossos 75 funcionários, tivemos que demitir 40. O clima ficou muito ruim, e então só conseguimos finalizar a Estação 1 do percurso formativo. Eu agradeço demais aos poucos que ficaram pela garra de conseguir terminar pelo menos essa parte.

Fizemos uma reunião, para saber como tinha sido esse processo, e o retorno foi muito bom. Nós vimos o restante das outras estações e ficamos encantados com o material. O seu aspecto lúdico facilitou muito para toda a equipe. Ficamos tristes por não ter conseguido terminar, mas de fato não havia clima nem condições para continuar.

Decidimos então que, neste ano de 2021, usaríamos todo o material que tinha sido enviado e finalizaríamos o processo pra nós mesmos. No tempo que desse, da forma que desse, com as nossas limitações.
Então enviei um e-mail pra equipe do Programa, compartilhando a nossa decisão, porque ela sempre foi de uma disponibilidade única.

Nesses anos todos que trabalho no terceiro setor, eu nunca vi um envolvimento de equipe como o que eu vi dessa vez. Já vi as pessoas tendo tempo para tirar dúvidas, mas a disponibilidade de 24 horas por dia, de ir atrás mesmo do que não sabiam para dar um retorno, isso nunca. E acho que isso foi propiciado pela pandemia, por incrível que pareça. Então, pra nós, ver que as pessoas que estavam do outro lado acreditavam naquilo tanto quanto a gente foi uma experiência extremamente gratificante.”

Guaraciara Lopes, presidente da Casa da Criança e do Adolescente (Volta Redonda, RJ)

O que vem agora

A próxima etapa do Programa Itaú Social UNICEF é o processo de avaliação dos materiais produzidos ao longo do percurso formativo e dos planos de intervenção apresentados até 31 de janeiro. 

“Esperamos realizar um processo de avaliação e seleção com transparência, que reflita muito dos valores do Programa, e que as organizações já conhecem pelo percurso formativo. Vamos fazer uma análise do percurso como um todo, não apenas do plano de intervenção, e ter um olhar sensível para as dificuldades que as OSCs foram vivendo ao longo desse processo. Queremos também chegar em territórios vulneráveis, que não chegamos antes.”

Leticia Moreira
distribuição de vagas ao fomento por região
Programa Itaú Social UNICEF

A avaliação será feita por profissionais de diferentes áreas do conhecimento, indicados pelos organizadores do Programa, e segue critérios de vulnerabilidades socioespaciais, conforme definidos no regulamento.

Confira ao lado a porcentagem de vagas por região.

“O número de inscritos superou as expectativas iniciais do Programa e partiu do esforço coletivo de mobilizar organizações de regiões prioritárias do Programa, que são: regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste. A proposta de garantir maior participação de OSCs das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste vem da necessidade de priorizar regiões que possuem indicadores sociais e educacionais mais desafiadores, contribuindo para um olhar voltado para o enfrentamento das desigualdades sociais existentes no território brasileiro.”

Julia Ribeiro

Esse processo se divide em três etapas:

“Agora a expectativa em relação aos planos é que eles deem conta de concretizar um pouco esse trajeto todo. Como, a partir de um olhar para a organização, da escuta muito qualificada com a comunidade, a minha intervenção pode se tornar muito mais efetiva, muito mais estratégica?”

Milena Duarte.

Continue acompanhando as notícias do Programa e as reflexões construídas junto às organizações.



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