Pele negra, negros olhares: a fotografia como contranarrativa 

Entrevista com Mônica Cardim

A fotógrafa Mônica Cardim, mediadora do Programa Itaú Social UNICEF, conta sobre seus trabalhos com retratos de pessoas negras e discute a importância da fotografia como contranarrativa aos padrões estéticos e culturais impostos desde a colonização.

“Nós estamos vivendo um momento em que é indispensável que as próprias pessoas se definam, se mostrem para o mundo e se percebam, porque quando nós negros nos fotografamos estamos aprendendo sobre nós, trazendo à tona aspectos outros que não os apontados pela hegemonia branca.”

Mônica Cardim

Confira o bate-papo!

Qual é a importância de trabalhar a linguagem da fotografia em outros parâmetros culturais? Pode contar um pouco da proposta da aula “Fotografia além do Olhar do Ocidente”, que você ministra na disciplina Fotografia e Arte: Interações ao longo dos séculos XX e XXI”, da Profa. Dra. Helouise Costa, no MAC-USP? 

Eu entendo a fotografia e o estúdio fotográfico como recursos de produção de conhecimento que, desde o seu princípio, no século XIX, foram utilizados pelo poder colonial como instrumento de dominação. Por exemplo, quando foram produzidos os retratos etnográficos de pessoas e os grupos humanos catalogados e hierarquizados – alguns apontados como inferiores, outros como superiores. 

Assim, o uso da fotografia por outros grupos humanos, com outras cosmovisões que não a europeia, ocidental, branca, masculina, funciona como uma contranarrativa, uma forma de mostrar outros aspectos da cultura, da imagem, dos corpos e da história desses povos que foram categorizados segundo a perspectiva ocidental. 

Foto: porque nós somos Bruno Coelho. Mônica Cardim, 2017.
Foto: porque nós somos Bruno Coelho. Mônica Cardim, 2017.

Nesse sentido, a fotografia tem relevância enorme para o desenvolvimento das sociedades e, sobretudo, desses grupos humanos que foram considerados não humanos. 

Segundo o sociólogo e pensador humanista peruano Anibal Quinano (1928-2018), a colonialidade tem as seguintes dimensões: 

  1. a colonialidade do poder (econômico e político), que estabelece a hierarquização racial de grupos humanos; 
  2. a do ser, que é a desumanização de alguns grupos humanos;
  3. a do saber, que se refere à hegemonia de algumas formas de produção do conhecimento em detrimento de outras – se pensarmos, a nas academias, o modo de pensar ainda é, de modo geral, pautada na perspectiva positivista, determinista, europeia, do século XIX ocidental. 

Trazer essas outras perspectivas à academia é uma insubmissão epistemológica, praticada por Grada Kilomba, entre outros autores.

No vídeo seguir, Mônica apresenta um pouco de sua pesquisa de doutoramento “Retratos transatlânticos: circulação de representações da afrodiáspora brasileira na fotografia de Alberto Henschel”. Vencedor do Prêmio Vídeo USP-TV Cultura 2020, na área de Linguagens, Letras e Artes, a produção concorre ao Grande Prêmio USP-TV Cultura 2020. Assista:

Como é trabalhar a identidade afro-brasileira por meio de retratos de afro-brasileiros? 

Foto: porque nós somos Giselda Perê,. Mônica Cardim, 2017
Foto: porque nós somos Giselda Perê. Mônica Cardim, 2017

Eu continuo na ideia da fotografia como uma forma de contranarrativa, ao trazer o olhar dos próprios negros sobre si e sua história. Não estou dizendo que pessoas brancas não podem falar sobre a negritude. Mas quem tem mais propriedade para falar sobre a própria história que as pessoas negras? Inclusive porque, por mais antirracista que seja, uma pessoa branca não sabe o que é a experiência de ser categorizado o tempo todo pelo outro. Quando fotografei em comunidade, eu senti que as pessoas me acolhiam de um jeito muito especial, por se identificarem comigo, e se abriam. Essa é a ideia da representatividade. 

Nós estamos vivendo um momento em que é indispensável que as próprias pessoas se definam, se mostrem para o mundo e se percebam, porque quando nós negros nos fotografamos estamos aprendendo sobre nós, trazendo à tona aspectos outros que não os apontados pela hegemonia branca. Não foi apenas no século XIX que a fotografia de pessoas negras, indígenas etc. foi feita quase exclusivamente por homens brancos, isso aconteceu também na década de 1940, durante a ditadura militar no Brasil, e assim por diante.

Então, nós vivemos um momento muito especial em que vamos construindo conhecimento sobre nós mesmos. Atualmente temos Marcela Bonfim, uma jovem fotógrafa negra de São Paulo que atua na região amazônica e que revela, por meio de imagens incríveis, que a Amazônia não é apenas indígena, mas é também negra. Existem grupos negros na região desde o período da colonização. São barbadianos, haitianos que migraram para lá por diversos motivos e em contextos diferentes e que estão lá, mas são pouco conhecidos pelo mundo.

A partir do trabalho da Marcela, eu entendi que o que fazemos são retratos a contrapele. Eu uso essa expressão a partir de uma reflexão sobre a proposta de Walter Benjamin de que a história precisa ser revista a contrapelo, ou seja, da perspectiva dos vencidos. Então, ao revelar as nossas perspectivas pela fotografia, o que fazemos são retratos a contrapele, porque a nossa pele foi determinante para o lugar que atribuíram a nós.

Como o fenótipo dos cabelos crespos se relaciona ao aspecto sociopolítica da questão étnico-racial em nosso país?

Talvez para as pessoas que têm o cabelo padrão, liso, seja difícil entender porque é tão importante afirmar e valorizar o modo como nós, negros e negras, utilizamos o cabelo. Entre outros aspectos, eu chamo atenção ao afetivo e ao sociopolítico. 

O primeiro aspecto passa pelo fato de que, mesmo uma criança que tenha a cor da pele mais clara, se tiver o cabelo crespo ela passa por situações de constrangimento, rejeições e por alguns tipos de violência, por ser considerada feia, por não ter o cabelo “arrumado”. Isso vai se estendendo da infância à adolescência e tornando a situação mais tensa, porque a rejeição aumenta. Desde não poder participar do grupo das meninas que têm o cabelo liso até não ser desejada pelos meninos, por exemplo. Há uma dor muito grande na experiência afetiva dessas crianças e desses adolescentes. Assim, muitas optam por alisar o cabelo para não serem rejeitadas pelos(as) namorados(as) e pelos próprios familiares. É necessário um enfrentamento muito grande para se assumir os cabelos crespos.

Os meninos também vivem essa problemática. Durante esse trabalho de vídeo que desenvolvi, eu colhi depoimentos tanto de homens como de mulheres contando que vieram a conhecer o próprio cabelo já adultos. Porque o escondiam: ou usavam dentro de uma toca, ou alisava, ou vivia de trança. A experiência de conhecer os próprios cabelos é tensa e ao mesmo tempo fortalecedora.

 Foto: porque nós somos Ana Musidora,. Mônica Cardim, 2017
Foto: porque nós somos Ana Musidora. Mônica Cardim, 2017

Em relação ao aspecto sociopolítico, como o cabelo alisado de pessoas negras é mais aceito pela sociedade, é muito mais difícil conseguir um trabalho se você usa o cabelo natural. Isso é apenas um espelhamento do racismo estrutural na sociedade. Isso é o que chamamos de racismo institucional, pois as instituições reproduzem o racismo estrutural. Assim, embora haja um empoderamento ao assumir os cabelos crespos, corre-se o risco de não ser aceito profissionalmente e precisar fazer negociações no trabalho. 

Esse enfrentamento é absolutamente necessário. Quando os jovens começam a usar o cabelo crespo na escola, nos ambientes de trabalho e de lazer, eles também estão se posicionando politicamente. Quando nós usamos a fotografia para documentar esses cabelos, que podem ser enormes, volumosos, ou pequenos, curtos, carecas, também estamos dando um basta a essa norma não explícita de que as pessoas negras têm que domar seus cabelos.

Trata-se, de fato, de poder usar os cabelos da forma como bem entender. Eu não critico as pessoas que optam por alisar os fios porque não sei por quais processos elas passaram e não cabe a mim analisar ou avaliar as opções delas. Como eu disse, há questões afetivas, sociopolíticas e culturais envolvidas no uso dos cabelos. Alguns povos africanos tinham técnicas para deixar os cabelos menos encaracolados. A questão é que as pessoas têm o direito de usar os cabelos da forma como se sentem bonitas e felizes. O problemático é as pessoas serem preteridas ou humilhadas por usarem os cabelos de forma natural.

Sobre a questão dos cabelos afro, conheça os livros O black power de Tayó e O black power de Akin, de Kiusam de Oliveira, e a animação Hair love: ame seu cabelo. Leia também o texto “Sob os caracóis dos nossos cabelos”, da estudante e artista negra Isabela Alves.

A preocupação com a visibilidade das mulheres negras no cenário artístico está presente na exposição “Mulheres Negras na Dança”, em parceria com a Nave Gris Cia Cênica. Pode falar um pouco dessa proposta? 

A-VÓS. Espetáculo da Nave Gris. Foto: Fredyson Cunha, Kanzelu Atro Olido, 2018

Este foi um convite que recebi da Nave Gris, que ganhou pela segunda vez consecutiva o edital do Proac para realizar o evento Mulheres negras na dança. 

Neste segundo encontro, o grupo resolveu fazer uma homenagem às bailarinas que participaram do primeiro. Foi então que eu entrei para fazer uma série de retratos das mulheres que participaram do primeiro e do segundo encontro, num total de 11 bailarinas. 

Foi muito interessante, pois cada uma dessas mulheres têm trajetórias pessoais e profissionais muito diversas. Algumas atuaram no exterior durante muito tempo, como Sayonara Pereira, que morou e atuou na Alemanha e atualmente dá aulas na USP. Outras têm uma atuação forte no Brasil, como Cristina Matamba, que desenvolve um trabalho belíssimo com dança afro, Ana Musidora, que trabalha com performance de forma muito intensa e provocadora, Renata Lima, bailarina e capoeirista que mora atualmente em Goiânia e desenvolve uma pesquisa muito forte sobre os corpos das mulheres e dos jovens negros no mundo urbano. Eu poderia falar de cada uma delas com muito afeto e admiração, porque para mim foi um grande aprendizado. 

A ideia da Nave Gris quando me convidaram para participar deste projeto foi homenagear e construir um arquivo de fotografias dessas mulheres. Minha proposta foi fazer retratos focando o rosto e a corporalidade dessas artistas. Foi muito interessante explorar a experiência desses corpos, porque entre elas há mulheres muito altas, outras de altura mediana, têm padrões de corpo diferentes.

Foto: Porque nós somos Melick Rudá e Priscila Obaci. Mônica Cardim, 2017

Foi um diálogo muito delicado e longo no meu estúdio, que eu costumo chamar de Estúdio Morada, pois fica na minha residência. Cada sessão durava cerca de 5 horas. Antes eu pedia para elas trazerem fotografias e outros objetos que guardassem lembranças afetivas e físicas.  Já no estúdio, nós conversávamos,  eu propunha perguntas provocadoras sobre essas memória e fazia um vídeo em que elas contavam um pouco dessas lembranças. Então partíamos para a sessão explorando alguns objetos que elas haviam trazido. 

Esse diálogo trouxe memórias de momentos e experiências muito fortes e bonitas: o primeiro batom vermelho, o momento em que se descobriu bailarina… Uma delas, Verônica Santos, trouxe a foto da avó pendurando a roupa no varal que lhe trazia a lembrança de um gesto que ela viu na avó e que a marcou como referência física e a levou para o caminho da dança.  

Esse trabalho revela, além das memórias, a luta dessas mulheres por seguirem esse caminho, lembrando o quão difícil é ser uma bailarina negra no mundo e principalmente no Brasil, porque os padrões da dança, do corpo retilíneo, alto, magro, da pele bem branca, translúcida, do cabelo preso no coque destoam do biotipo da maioria das mulheres negras, em geral curvilíneas, de quadril largo, coxas grossas. Como elas podem dançar? Mostrar a diversidade de corpos dançantes foi muito bonito nesse trabalho.  

Além de mim, os curadores da exposição Mulheres negras na dança são Kanzelumuka, Murilo de Paula e Fredyson Cunha (integrantes da Nave Gris Cia Cênica).

Em sua interação com as OSCs participantes do Programa Itaú Social UNICEF, que caminhos e desafios você vê para construção da escuta do diverso e da valorização da alteridade na educação integral e inclusiva nos territórios?

Essa pergunta me faz pensar que talvez a crise causada pela pandemia de Covid-19 não só escancarou e aprofundou as desigualdades, mas também promoveu uma abertura das OSCs  a discutir questões como diversidade e inclusão. Dentro do grupo em que eu estou atuando como mediadora, as pessoas têm se mostrado muito abertas e interessadas nessas reflexões, então eu estou considerando esse momento, de alguma forma, positivo. 

De maneira geral eu me deparo com mais resistências a esse debate. O mais importante: tenho percebido grande interesse dos participantes em entender melhor o que é diversidade. Na formação, temos destacado a importância de descortinar a desigualdade/exclusão e os riscos sociais a que certos grupos de crianças e adolescentes estão submetidos em decorrência de marcadores sociais de gênero/sexualidade e raça/etnia. Então, eu estou bastante feliz com essas manifestações de interesse do grupo.  Sinto que estamos indo por um bom caminho.

Autorretrato que integra a série Protocolo Diário, projeto inédito desenvolvido por Mônica desde o início da pandemia

Mônica Cardim é doutoranda em Artes pelo Programa de Pós-graduação Interunidades em Estética e História da Arte da Universidade de São Paulo (desde 2017) e mestre pela mesma universidade (2012). Pesquisa a representação de pessoas negras em retratos fotográficos do alemão Alberto Henschel, produzidos no Brasil no século XIX. Desde 2018, ministra a aula “Fotografia além do Olhar do Ocidente”, na disciplina “Fotografia e Arte: Interações ao longo dos séculos XX e XXI”, da Profa. Dra. Helouise Costa, MAC-USP. 

Como fotógrafa, Cardim desenvolve a série Protocolo Diário (desde abril de 2020) com a produção de autorretratos a partir da sua subjetividade e experiência cotidiana com o isolamento social; o projeto “Identidades possíveis – Eu sou, nós somos” (desde 2015), apresentado no Centro Cultural de La Ciencia (Buenos Aires, 2017) e no Festival Nacional de Cultura Afro-Argentina (La Plata, 2017). O ensaio consiste em retratos fotográficos de afro-brasileiros explorando a relação afetiva e política com seus cabelos crespos. 

Em parceria com a Nave Gris Cia Cênica, criou a exposição “Mulheres Negras na Dança” (2017), destinada a contribuir para a memória arquivística da dança, dando visibilidade à presença e às atividades das mulheres afro-brasileiras no cenário da dança paulistana. Participou com apresentação de trabalhos acadêmicos e artísticos de distintos congresso no Brasil e exterior, dentre os quais: International Symposium In/Visibility and Opacity: Cultural Productions by African and African Diasporic Women, Alemanha, 2019; Workshop Diasporic Imaginaries, Germanic Center of Art History, França, 2019; ReSignifications: The Black Mediterranean Conference, Universidade de Palermo, Itália, 2018; Congresso Luso Afro-Brasil, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Portugal, 2015.

Confira a seguir as dicas de materiais da entrevistada:

Entrevista para o suplemento feminista do jornal Pagina 12, de Buenos Aires

Identidades possíveis: Eu sou – nós somos: textos de Renata Martins, cocuradora da exposição em Buenos Aires e em La Plata. https://www.leporelloweb.com/copia-intervenciones-ii

Nave Gris  Cia Cênica

Mulheres Negras na dança – catálogo

Espetáculo A VÒS – Nave Gris: assista a seguir.