Organizações da Sociedade Civil protagonizam avaliação entre pares na segunda etapa de avaliação e seleção
do Programa Itaú Social UNICEF

“Eu sou porque você é”

Um dos conceitos da filosofia africana do Ubuntu

Parceria, troca, conexão, reconhecimento, generosidade, partilha, cocriação, persistência, incentivo, resiliência, consciência, coletividade, acolhimento, confiança, empatia, caminhada, Ubuntu. Qualquer um desses termos poderia servir de ponto de partida para colocar em prática os preceitos do Programa Itaú Social UNICEF. Junto com eles, gestos como aperto de mão, abraço, sorriso, olhar, um agradecimento com um simples aceno com a cabeça, com as mãos ou com o piscar de olhos, o amor representado por um coração feito com as mãos e o pacto de “ninguém soltar a mão de ninguém”.

Simbolicamente, assim foi marcado o início da segunda etapa de avaliação e seleção do Programa Itaú Social UNICEF, a avaliação entre pares, na qual as 80 Organizações da Sociedade Civil (OSCs) pré-selecionadas desempenharam o papel de avaliadoras de outras OSCs. Na abertura do encontro de formação, realizado no dia 3 de maio, os representantes das OSCs foram convidados a citar uma palavra e fazer um gesto de inspiração – os quais estão exemplificados acima. Desde então, foi possível compreender os caminhos que os levaram até ali e prenunciar os passos que dariam a seguir.

Isso porque, durante as entrevistas entre as OSCs, realizadas de 10 a 21 de maio, as organizações lançariam mão desses mesmos termos e gestos para avaliar seus semelhantes. “Na avaliação entre pares, a tendência é se colocar no lugar do outro, pois as OSCs estão lidando com realidades, territórios e estruturas muito diferentes das suas. Apesar dos critérios e pontos objetivos do Programa, há um conceito subjetivo, a empatia, a percepção particular de cada um, a mente aberta para compreender a realidade do outro, o cuidado com a outra instituição, o olhar sem preconceitos e sem pensar em competição”, pontua Letícia Moreira, coordenadora do Programa pelo CENPEC Educação.

Aprendizado coletivo e colaborativo

Durante o Percurso Formativo, os materiais e os Planos de Intervenção elaborados, de maneira geral, foram avaliados a partir das dimensões de vulnerabilidade do território, diversidade, articulação no território, desenvolvimento institucional, desenvolvimento integral de crianças e adolescentes, e lógica do plano. A avaliação entre pares foi uma inovação proposta pelo Programa para incluir novos olhares e percepções das próprias OSCs no processo de avaliação e seleção. Nessa forma de avaliar, cada OSC entrevistou outra OSC de uma região diferente da sua. Com o intuito de esclarecer dúvidas que porventura ainda existissem com relação à leitura dos planos, as organizações foram motivadas a incluir seus próprios questionamentos nas entrevistas.

Letícia Moreira

“Ao invés de avaliar somente em cima de critérios que já adotamos, as OSCs foram envolvidas na apropriação do Plano de Intervenção; tanto para que olhassem para outras organizações e vissem como acontece em outras regiões, quanto para analisarem seus próprios planos. Muitas vezes, as OSCs não conseguem se articular e explicar em seus projetos o que gostariam de aplicar. Na avaliação entre pares elas fazem uma autoavaliação e constatam o quanto a escrita é importante para a clareza do plano. Essas tarefas constroem um aprendizado coletivo”, explica Letícia. 

Segundo ela, “de forma subjetiva, as entrevistas permitem um maior esclarecimento do que foi apresentado nos planos para identificarmos quais seguirão para a próxima etapa com mais segurança, quais dialogam com os critérios do Programa, quais estão mais próximos do que o Programa espera, quais têm mais condições de serem implementados, se o que propõem têm condições de ser realizado em 18 meses e com o orçamento destinado”.

Fernanda Andrade, analista de projetos da Gerência de Fomento do Itaú Social, conta que a expectativa em torno da avaliação entre pares, ao trazer as organizações que estão concorrendo entre si para o papel de avaliador, é ter a visão dos próprios participantes no exercício que outras OSCs também colocaram em prática no Percurso Formativo e na elaboração de seus Planos de Intervenção.

Fernanda de Andrade
Fernanda Andrade

“Isso pode ser muito rico e valioso para apoiar na avaliação e seleção, para ter um insight do que não ficou muito claro do plano na hora de trazer para o papel, e nos ajudar a tomar uma decisão com múltiplos olhares. Além disso, na maioria das vezes, as OSCs estão no lugar de terem seus projetos avaliados, mas raramente estão no lugar de avaliadores. Decidimos experimentar e ver se esse é um formato que dá certo e, quem sabe, levar para outros programas”.

Além de incluir novos olhares para a composição da seleção, a avaliação entre pares também é vista por Fernanda como um processo de aprendizado colaborativo. “Em muitos editais que temos, especialmente os voltados para a sociedade civil, há especialistas, parceiros e profissionais que colaboram, mesmo que informalmente, com outras organizações. Na avaliação entre pares, temos o olhar colaborativo das próprias organizações que pleiteiam o fomento. E como elas não estão concorrendo entre si, é um espaço de aprendizado e de participação, de experimentar estar nesse outro lugar. Há uma divisão da responsabilidade: é um pouco de quem está analisando o plano e de quem está na ponta, aplicando o plano”.

Juliana Sartori, gerente de Projetos Educacionais do UNICEF, acrescenta:

Juliana Sartori
Juliana Sartori

“O diferencial da avaliação entre pares parte da oportunidade de aproximar as organizações que, muitas vezes, compartilham as mesmas oportunidades e desafios. É uma prática complementar de avaliação, que além do olhar técnico, ajuda a qualificar, a pensar em aspectos práticos, a olhar a organização que vai colocar o Plano de Intervenção em prática. É uma etapa muito significativa, por ser mais um momento de trocas e aprendizagens”.

Como funcionou a avaliação entre pares?
Nesta etapa, cada OSC avaliou outra OSC, ou seja, todas as 80 OSCs realizaram entrevistas e também foram entrevistadas. Dentro dessa dinâmica, um representante de uma OSC entrevistou dois representantes de outra OSC (um coordenador e um profissional da área pedagógica). Em média, as entrevistas duraram 40 minutos e foram acompanhadas por um(a) colaborador(a) do Programa. Para a preparação e aplicação das entrevistas, as OSCs contaram com caderno de avaliação, dossiê da organização a ser avaliada com ficha resumo, vídeo de apresentação, Plano de Intervenção, orçamento e cronograma, roteiro de perguntas e formulário para registro da entrevista.

Apoio técnico

Na divisão de responsabilidades da avaliação entre pares, de um lado estão as 80 OSCs no papel de entrevistadoras e do outro está uma equipe técnica de apoio composta por nove profissionais que participaram das etapas anteriores do Programa, como mediadores(as) e/ou como avaliadores(as). “O papel dessa equipe de apoio é esclarecer as dúvidas e ajudar na formulação dessas novas perguntas, orientar com relação aos documentos, dar um suporte pedagógico para ajudar na compreensão dos materiais que as organizações têm em mãos, ajudar a aplicar a entrevista e a preencher os formulários de avaliação”, diz Letícia.

Uma das integrantes da equipe técnica de apoio do Programa é Meiry Coelho,  consultora no desenvolvimento de projetos e políticas públicas para a igualdade de gênero, raça/etnia e defesa dos Direitos Humanos. Ela acompanhou dez das 24 OSCs da região Norte durante a avaliação entre pares e destaca a importância desta etapa para o desenvolvimento das organizações.

Meiry Coelho
Meiry Coelho

“É um processo contínuo de aprendizado, troca de experiência e formação de rede. É uma avaliação, mas não é um processo isolado. É o resultado de todo o Percurso Formativo, onde as OSCs trocaram muito entre si: informações, vivências, histórias, conquistas e desafios. Há os eixos centrais do Programa, mas destacam-se, sobretudo, as experiências das OSCs que aceitaram o desafio de se mostrar, se repensar, de fazer um planejamento voltado para sua transformação interna, da sua governança ao seu território. E, para isso, elas perceberam que precisam se articular em rede”. 

Relações horizontais entre as OSCs

Aspectos observados em uníssono pela equipe técnica durante a avaliação entre pares foram a generosidade e o acolhimento entre as organizações. “Essa avaliação não é uma relação de poder, onde uma OSC do Sudeste tem mais propriedade e conhecimento do que uma OSC do Nordeste, por exemplo. É uma relação horizontal, em pares, em que as organizações pensam em conjunto os desafios, territórios, eixos do Programa, se autotransformando e repensando os seus Planos de Intervenção. A gente escuta ‘avaliação’ e imagina algo que possa desclassificar uma OSC, mas está relacionada às etapas anteriores do Programa. Não faria sentido, neste momento, elas deixarem de trocar e colaborar entre si, com solidariedade, resiliência para entender seus limites, se abrir para transformação, e fazer isso em parceria e com empatia”, destaca Meiry.

Outro profissional que deu auxílio e apoio às organizações na avaliação entre pares, Ricardo Alexandre Amaral, especialista em Saúde Pública, considera o formato que o Programa vem desenvolvendo inovador e comprometido com a equidade.

Ricardo Amaral

“Esse momento é uma avaliação horizontal, democrática e participativa, onde as próprias organizações têm a possibilidade de, além de utilizar um processo avaliativo, ouvir e escutar as outras OSCs e entender um pouco do trabalho delas. Permite um intercâmbio, no qual conhecem e se aproximam ainda mais das demais organizações, entendem que fazem parte de uma rede e que todas e todos estão ligados a um trabalho de desenvolvimento comunitário, com incidência de políticas públicas, focado no desenvolvimento integral de crianças e adolescentes”.

Envolvido nas áreas de desenvolvimento comunitário e direitos humanos, ele destaca, ainda, que a avaliação entre pares é uma oportunidade de reconhecimento. “Ações como essa mostram que não estamos só no mundo. Quando vemos que tem outras pessoas na mesma vibração, fazendo trabalhos neste sentido, se preocupando com o mesmo que nós nos preocupamos, é muito recompensador. Além do processo técnico, a avaliação entre pares traz esse processo humano de entender que tem mais gente nessa mesma caminhada, querendo algo melhor e trabalhando pelo desenvolvimento comunitário”.

Protagonismo e empoderamento entre pares

Uma vez protagonistas na avaliação entre pares, as OSCs se tornam empoderadas e se sentem reconhecidas dentro do Programa, segundo o cientista social Ricardo Paes Carvalho. “Ao ter acesso ao trabalho de outras OSCs e se apropriar dos materiais produzidos no Percurso Formativo, elas puderam olhar tudo e fazer uma análise pertinente. A avaliação entre pares destaca um protagonismo total das OSCs ao colocá-las no papel de avaliadores – pois sentem na pele como são feitos os processos de avaliação e seleção – e também no papel de acolhimento – ao avaliar outra organização com olhar igualitário, justo e equânime. É uma etapa legítima. Colocar as duas OSC juntas é promover um processo de formação entre elas”.

Ricardo Carvalho
Ricardo Carvalho

Assim como os colegas da equipe técnica de apoio, ele destaca o processo educativo e de aprendizado que vem se desenvolvendo entre as organizações desde o Percurso Formativo, e acrescenta: “Mesmo tendo sido realizado em encontros virtuais, a troca entre as OSCs também se desdobrou agora nas entrevistas. O olhar não é de enfrentamento, mas de acompanhamento e de tirar o melhor do outro. É tirar tudo o que tem de bom, de seu processo e de sua história. Essa troca, esse olhar de igual para igual, do olho no olho, promoveu uma boa troca de energia”.

Juliana, do UNICEF, acrescenta o potencial que a avaliação entre pares tem de fazer com que cada organização conheça outras realidades, se conecte, cresça e se inspire com outras OSCs. “Essa é uma grande virada de chave que o Percurso Formativo do Programa proporciona. Uma oportunidade de ressignificar práticas, revisitar processos, destacar o que já é feito e aprimorar. A avaliação entre pares entra nesse contexto de aproximação entre as organizações. É um espaço de troca entre as próprias instituições, no qual elas se organizam, se conhecem, se inspiram, se conectam com organizações diferentes, desafios diferentes, em territórios diferentes”.

Próximos passos

A etapa de avaliação entre pares irá selecionar as 40 OSCs que receberão a formação e o fomento financeiro do Programa Itaú Social UNICEF. Já as outras 40 OSCs que não forem classificadas, farão parte da Rede pela Educação Integral e Inclusiva do Programa. O resultado com as 40 OSCs selecionadas será divulgado no dia 16 de junho.

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