Olhar para fora, construir caminhos para um território educativo

O seu olhar lá fora / O seu olhar no céu /
O seu olhar demora / O seu olhar no meu /
O seu olhar / melhora o meu”

O seu olhar (Arnaldo Antunes)

Nesta semana, o percurso formativo do Programa Itaú Social UNICEF inicia uma nova etapa, com a Estação 2 – Olhar para fora. O convite agora é que as organizações da sociedade civil busquem ampliar as percepções para as atividades desenvolvidas em articulação com os demais sujeitos dos territórios em que atuam. A proposta parte da seguinte pergunta:

“As ações que a OSC realiza estão em sintonia com as demandas e potencialidades do público atendido, do território e da própria OSC?”

A fim de orientar reflexões e práticas em torno dessa questão, as atividades do percurso têm como foco apurar o olhar para fora, ou seja, para o território onde cada organização atua. Conhecer esse espaço, seus sujeitos, demandas e potencialidades é fundamental para nortear as ações da organização em diálogo com o público atendido, suas famílias e os profissionais da OSC, e construir parcerias com outras pessoas e instituições do entorno.

Como o foco da Estação 2: Olhar para fora se articula aos objetivos do Programa? Segundo Fernanda de Andrade (Itaú Social):

Fernanda de Andrade
Fernanda de Andrade

“Esta Estação convida as organizações da sociedade civil a construir uma nova camada de escuta, agora com seu público, familiares, comunidade e parceiros, para que possam refletir sobre a forma de atuação e o seu diálogo com os territórios, agregando novas perspectivas para seu trabalho, e contribuindo para seu desenvolvimento institucional.

Historicamente, as OSCs se constituem a partir de questões sociais emergentes nos seus contextos de atuação. Porém, as mudanças na sociedade exigem a análise contínua das metodologias de trabalho, de conceitos e estratégias que apoiam suas práticas no dia a dia. Exercitar a escuta e compreensão de como as crianças e os adolescentes veem e avaliam as atividades realizadas pela OSC, como enxergam e (des)valorizam os espaços do seu território, e colocar essas percepções em diálogo com as famílias e outros atores do território que contribuem para a educação integral permite à organização revisitar suas práticas, definir as ações prioritárias e como elas podem ser incorporadas em seu plano de intervenção.”

Juliana Sartori
Juliana Sartori

Para Juliana Sartori (UNICEF), é importante olhar para o entorno a fim de promover o desenvolvimento pleno de crianças e adolescentes:

“A educação integral e inclusiva acontece quando nos permitimos mergulhar nas questões intrínsecas do território. Esse mergulho se dá por meio da escuta ativa e sensível dos membros da comunidade, da observação da forma como vivem, dos locais que frequentam, da maneira como se expressam. A articulação com diferentes atores e instituições, como escolas, coletivos e grupos do bairro, nos traz um olhar mais profundo do território.

Nesse sentido, a educação integral só é possível quando pensada de forma articulada, pois nos auxilia a compreender melhor a realidade das crianças e adolescentes e nos permite construir com eles as estratégias e propostas, que façam parte de um projeto coletivo mais amplo, conectado aos desafios da comunidade.”

Letícia M. da Silva
Letícia Moreira da Silva

Promover a participação e colaboração de diversos atores dentro e fora das organizações é um objetivo que permeia o Programa como um todo. Letícia Moreira da Silva (CENPEC Educação) explica:

“Todas as atividades do percurso formativo são baseadas na escuta das diferentes pessoas envolvidas com o desenvolvimento integral das crianças e adolescentes: tanto o público atendido, familiares e profissionais da OSC, como outras pessoas da comunidade que contribuem para que o desenvolvimento integral seja efetivado, entre elas, as demais instituições presentes no território.”

Especialmente na Estação 2, as OSCs serão convidadas a realizar reflexões e diagnósticos do território em diálogo com os diferentes sujeitos que fazem parte daquela comunidade. “A partir desse olhar compartilhado sobre o território, esperamos que as OSCs possam fazer descobertas e aprofundar o conhecimento que têm sobre sua localidade de atuação”, informa Letícia.

O contexto atual, marcado pela Covid-19 e pelo distanciamento social, traz desafios para a realização dessa escuta. Reconhecendo esse cenário, o Programa convida as OSCs para, dentro de suas possibilidades, mobilizarem esses atores, identificarem potencialidades educativas no território e refletirem sobre questões que podem surgir ou se agravar em razão da pandemia, como a evasão escolar e o empobrecimento das famílias. “Acreditamos que todas as OSCs que realizarem esse diagnóstico e se dispuserem a refletir sobre esse processo poderão construir um bom plano de intervenção, com ações mais aderentes à realidade local, por meio de uma gestão mais colaborativa, participativa e com mais legitimidade junto às comunidades”, reflete Fernanda de Andrade.

Olhar para fora e escutar outras vozes: com a palavra, as(os) mediadoras(es)

Quais são os maiores desafios de se pensar caminhos de escuta e articulação com os territórios em prol da educação integral e inclusiva neste momento? Que reflexões e práticas podem ser desenvolvidas nesse sentido? A seguir, quatro mediadores do Programa apresentam seu ponto de vista acerca dessas questões centrais no percurso proposto.

Elza Fátima Rodrigues
Elza Fátima Rodrigues

“A Estação 2 é um belo e desafiante convite para as organizações conhecerem melhor os territórios onde estão inseridas. É necessário que esse ‘olhar para fora’ parta de uma nova perspectiva, como o olhar de uma criança que descobre seu território com curiosidade, generosidade, sem juízos de valor, simplesmente olha atentamente o lugar, sentindo-se parte, integrada”, afirma Elza Fátima Rodrigues, jornalista, professora e doutora em Sociologia da Comunicação pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).

“Mas não basta olhar. É importante também ouvir, no caso das OSCs, ouvir as crianças e adolescentes, suas famílias, os trabalhadores envolvidos nos projetos, sem hierarquias, valorizando os saberes de todos e todas, com acolhimento, exercitando a empatia que nada mais é do que colocar-se no lugar do outro, buscando identificar-se com seus sentimentos, dores, alegrias, esperanças e sonhos”, destaca a mediadora, que também é ativista no Centro de Estudos e Defesa do Negro do Pará (CEDENPA).

Laísa Costa
Laísa Costa

“É chegada a hora de encarar as ações desenvolvidas e ouvir as múltiplas vozes para que possamos compreender e desenvolver ações efetivas no território. Causando o impacto de forma alinhada com o objetivo do local. Afinal, pensar em múltiplas vozes é pensar diferente”, afirma a especialista em gestão estratégica de comunicação organizacional e relações públicas pela Universidade de São Paulo (USP) Laísa Costa.

A escuta, como uma forma tradicional de transmissão e construção de conhecimentos, acabou sendo deixada de lado ao longo das transformações sociais, mas tem papel importante na dinâmica das relações humanas e pode ser resgatada no processo educacional:

“Nossa educação perpassou o distanciamento da vida e da essência do saber. Nossos ancestrais passavam o conhecimento através da história oral. Os mais velhos ensinavam os mais novos e a escuta era praticada desde o berço. Esse compartilhamento permite que mais vozes escutem e paremos de julgar contando apenas uma história, muitas vezes observada apenas pela nossa lente”, reflete Laísa.

Mônica Cardim
Mônica Cardim

Já a educadora, fotógrafa e pesquisadora Mônica Cardim destaca como um primeiro passo reconhecer que as desigualdades se aprofundam e se alargam neste momento, marcado por uma crise sanitária mundial.

“Tendo reconhecido este aprofundamento, realizar escutas generosas e honestas, no sentido de perceber que as necessidades, as urgências estão em todos os aspectos da vida das pessoas. Elas estão relacionadas à sobrevivência, pois as pessoas precisam de alimentos, de moradia, de proteção. E são de ordem emocional, intelectual, cultural, afetiva”, aponta. 

Mônica, doutoranda em Artes pelo Programa de Pós-graduação em Estética e História da Arte da Universidade de São Paulo (USP), ressalta a generosidade que deve permear o processo de escuta:

“A escuta não deve ser autocentrada, voltada ao que os responsáveis pelas OSCs querem ouvir, porque diz respeito àquilo que têm a oferecer. Se a OSC oferece atividades culturais, como forma de garantia de direitos, pois o acesso à cultura é um direito, como ela se articula no território para que os outros direitos também sejam atendidos?”

Nesse sentido, pondera Mônica, é importante “pensar intersetorialmente, de forma ampla, isto é, entendendo que a articulação entre os diversos setores, dentro e fora do território, podem favorecer uma educação integral e inclusiva”. Daí a necessidade de uma articulação com outras instituições, seja do poder público, seja do setor privado, além das lideranças locais e da comunidade em geral. 

Para o cientista social e filósofo Jailson Moreira, o “olhar para fora” possibilita reconhecer e compreender” o chão que pisamos, que ajudamos a moldar, e a identidade que ajudamos a construir”. Assim, esse “olhar para fora” pode contribuir para a promoção da educação integral e para a inclusão de crianças e adolescentes. Para isso, pontua o mediador, em primeiro lugar é preciso refletir sobre quatro instâncias: de qual educação, integralidade, escola, lugar e organização estamos tratando, observa Jailson.

Jailson Moreira
Jailson Moreira

“ ‘Olhar para fora’ é perceber o lugar onde presença, ausência, ação, tempo, contexto, discurso, diálogo, filosofia e experiência devam ser vividos e pensados. Esse lugar que precisamos ‘olhar para fora’ é o território, esse lugar de força empiricamente validada por seus espectadores, quais sejam: as crianças, os adolescentes, os estudantes, as suas mães, os seus pais, seus avós; os Coletivos de Direito, os Conselhos de Direito institucionalizados; os Movimentos Sociais, os Movimentos de Mulheres, os Movimentos LGBTQI, os Movimentos Negro e Indígena, o Movimento estudantil, o Poder Público. ‘Olhar para fora’ é viver uma experiência poética e fenomenologicamente rara; uma espécie de metafísica da presença.”

Escuta da diversidade

Acerca da diversidade, temática transversal do percurso, Mônica destaca o grande desafio para quem trabalha com crianças e adolescentes: o enfrentamento dos riscos sociais a que eles estão submetidos em decorrência das especificidades de seus corpos, suas identidades étnico-raciais, de gênero, de orientação sexual, de suas cosmovisões e/ou religiosidades. 

“A OSC deve saber reconhecer a beleza da diversidade e trazer para dentro da instituição essa diversidade, deve verificar que se a comunidade está representada em todas as instâncias hierárquicas. Ao olhar para fora, deve rever seus conceitos e preconceitos”, reflete a educadora, que pesquisa a representação de pessoas negras em retratos fotográficos do alemão Alberto Henschel, produzidos no Brasil no século XIX e, desde 2018, ministra a aula “Fotografia além do Olhar do Ocidente”, no Museu de Arte Contemporânea (MAC/USP), em São Paulo (SP).

A artista destaca a importância de as organizações se permitirem aprender com outras perspectivas, visões de mundo e formas de conhecimento para além das ocidentais, prevalentes em nossa sociedade.

“As culturas dos povos originários possuem uma relação ética com o meio ambiente e da vida em sociedade de respeito e proteção. Falando de forma simples, trata-se de ser parte do meio ambiente, de ser parte da sociedade. Isso não é novo. E não quer dizer que a perspectiva ocidental não tem nada de útil. Entender que a perspectiva ocidental faz parte de um todo, não é única e nem a melhor.”

Ao falar da articulação com o território e as pessoas que fazem parte dele, a educadora cita um conceito presente entre os povos africanos falantes da línguas Zulu e xhosa e que se tornou importante na luta contra o apartheid, na África do Sul: o Ubuntu.

Reprodução
Reprodução

“Penso que o conceito Ubuntu, ‘eu sou porque nós somos’, é um bom ponto de partida. Gostaria que as OSCS e suas lideranças percebessem que o fato de serem maiores ou menores não é o que as tornam mais inclusivas ou o que possibilita formações mais integrais.

Uma instituição pode oferecer aulas em distintas linguagens artísticas, ter uma equipe volumosa, mas não possuir uma preocupação com a diversidade, não observar os próprios preconceitos, não estar atenta aos riscos a que estão submetidos crianças e jovens em decorrência de suas identidades e, portanto, não buscar minimizar estes riscos.

Já uma instituição pequena, com foco em uma ou duas linguagens, pode estar tão bem articulada no território, que tem suporte de outras instituições e mesmo de lideranças locais e da comunidade para proteção jurídica e cuidados psicossociais e de saúde. Ou seja, ter poucos recursos individualmente, não significa estar carente totalmente de recursos, quando há boa articulação dos recursos e dos interesses.”

A reflexão de Elza vai na mesma direção:

“A relação de uma pessoa, de um coletivo com o território é parte fundamental da atuação de uma organização social, que olha, escuta, cria empatia, acolhe e transforma os sonhos coletivos em realidade. Assim, visualizo a Estação 2 como um elo de ligação com a diversidade como uma riqueza, um valor, pois aprendemos com tudo e com todos se somos capazes de nos abrir para novos olhares, buscando sentir, registrar e identificar todo o potencial do território, com suas debilidades, carências, mas sobretudo suas potencialidades.”

Desenvolver a escuta é, assim, o primeiro passo para inclusão. “As experiências de vida perpassam pelas vivências. Como podemos criar ações e atividades se não sentimos ou enfrentamos na pele os desafios sociais que ali se apresenta?”, questiona Laísa.

“A partir do momento que ouvimos os silenciados, os apagados, os excluídos do convívio social por tantos anos, abrimos o coração, a mente a novos horizontes e descobrimos a verdadeira história. Não podemos saber sobre outro a não ser que esse outro conte sobre si. Sem esse olhar, julgamos pelas nossas lentes, muitas vezes embaçadas pela estruturação do país, pela educação familiar, escolas e amigos”, alerta.

Entre as práticas que podem ser desenvolvidas pelas organizações a fim de projetar seu olhar para fora, a mediadora cita:

“Criar roda de diálogo e escuta. Trabalhar com os mais velhos da comunidade, ouvir os mais antigos do entorno para entender o território. Buscar parcerias com organizações que realizam ações inclusivas e juntos desenvolver um plano de ação efetivo”, sugere Laísa.

Capa de O mestre ignorante
Capa de O mestre ignorante

Nesse sentido, a educação, em escuta e diálogo com os territórios, com seus sujeitos, dinâmicas e sua diversidade, torna-se um caminho formativo e transformador, como observa Jailson, citando Jacques Rancière, em sua obra O mestre ignorante (2007):

“Algo que não devemos deixar de pensar e considerar é que sempre devemos educar ‘para transformar o que sabemos, não para transmitir o já sabido’. E de que ‘se alguma coisa nos anima a educar é a possibilidade de que esse ato de educação, essa experiência em gestos, nos permita liberar-nos de certas verdades, de modo a deixarmos de ser o que somos, para ser outra coisa além do que vimos sendo’”, reflete o mediador.

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