Olhar para dentro da diversidade

Qual é a importância de as Organizações da Sociedade Civil refletirem sobre suas práticas em prol da diversidade? Nesta reportagem, vamos falar um pouco de como a diversidade é trabalhada na Estação 1 do percurso formativo. Em seguida, trazemos a entrevista com uma das consultoras do Programa Itaú Social UNICEF, Liliane Garcez, especialista em pessoa com deficiência.

A promoção da equidade é um dos grandes objetivos da educação integral e inclusiva. Garantir condições para que todas as crianças e adolescentes possam viver e desenvolver de forma plena suas capacidades e habilidades exige reconhecer a singularidade de cada uma no contexto da comunidade a que pertence.

Na construção desse caminho, a ideia de equidade abraça a reflexão sobre a diversidade. Em nosso percurso formativo, a temática da diversidade está presente de maneira transversal e pautada pelos marcadores sociais de raça/etnia, gênero, sexualidade e pessoa com deficiência. Esses marcadores ajudam a compreender melhor os grupos que tiveram seus direitos historicamente negados ou não atendidos de fato.

Seguindo a proposta da Estação 1: Olhar para dentro, essa reflexão se inicia com as seguintes perguntas:

  • Como sua organização lida com os preconceitos relacionados aos marcadores sociais de raça/etnia, gênero, sexualidade e pessoa com deficiência?
  • O que vocês conhecem e praticam para estimular a diversidade?
  • Como aprimorar essas ideias e ações para a construção de uma sociedade mais justa e equitativa?

Observar como cada organização se relaciona com a diversidade é o primeiro passo para refletir sobre essa questão e promover mudanças necessárias para a equidade. Entretanto, o percurso formativo prevê outras formas de trabalhar essa temática:

  • compartilhamento das experiências das OSCs e seus contextos;
  • mediadoras e mediadores com origens, vivências e conhecimentos relacionados às respectivas regiões onde as organizações atuam;
  • escuta do território e de mestres e mestras, sabedores e sabedoras das culturas locais;
  • entre outras.

Assista a seguir nosso vídeo sobre diversidade:

Liliane Garcez
Liliane Garcez

Como as OSCs podem olhar para a diversidade em suas práticas a partir da reflexão sobre os marcadores sociais? A educadora Liliane Garcez explica:

“Sabemos, na prática, que a humanidade é diversa, que o território onde atuamos é diverso. E mais, dentro de cada um dos marcadores sociais, há muitas diferenças. Ou seja, os adultos, por serem adultos, não são iguais entre si; os negros, também não, os indígenas, tampouco.
Nós temos vários desses marcadores juntos. Posso ser uma mulher, branca, adulta, lésbica etc. E todos temos o mesmo valor enquanto pessoas! Perceber quão diferentes foram as pessoas que construíram a organização que somos hoje é importantíssimo.”

Lente para a diversidade: entrevista com Liliane Garcez

Especialista no marcador pessoa com deficiência (PCD), Liliane Garcez é idealizadora e articuladora do COLETIVXS, organização que desenvolve projetos educacionais colaborativos e inclusivos. Ao lado de Giselle dos Anjos Santos, especialista em raça/etnia, gênero e sexualidade, Liliane realiza a consultoria do Programa na temática da diversidade.

Para aprofundar um pouco mais a discussão, conversamos com esta ativista com duas décadas de experiência na área de educação e direitos humanos. Confira a entrevista!

Programa: Tendo em vista o foco da Estação 1: Olhar para dentro, por que focar a diversidade a partir da história e do cotidiano das OSCs?

Liliane Garcez: Atentar para a diversidade é um exercício contínuo de nossa percepção. Um processo ao qual precisamos estar atentos cotidianamente. Como sabemos, nossa sociedade se estruturou de forma machista, sexista, racista e capacitista. Quero dizer com isso que não são os outros que têm preconceitos. Somos todas e todos nós! E esse não é um problema em si. Passa a ser um problema quando decidimos não fazer nada a partir dessa constatação! 

Nesse movimento de olhar para dentro e revisitar o que fazemos enquanto organização – por que fazemos, como fazemos e para quem fazemos -, não podemos deixar de lado uma outra pergunta: será que temos deixado crianças e adolescentes que residem em nosso território de fora das nossas ações? A resposta a essa pergunta pode nos surpreender se considerarmos os marcadores sociais de raça/etnia, gênero, sexualidade e condição de deficiência. Será que somos preconceituosos? 

Longe de nos envergonhar com a resposta, o desafio é encararmos essa questão de frente para mantermos o que já fazemos bem e traçarmos planos com foco naquilo que podemos melhorar. Mantermo-nos em movimento é a melhor forma de valorizar nossa história e ao mesmo tempo aprimorar nossa atuação cotidiana, ampliando cada vez mais nossa lente para a diversidade.

Programa: Como as atividades dessa estação estimulam as OSCs a olhar para a diversidade em suas práticas de educação integral e inclusiva?

Liliane Garcez: As atividades são todas dialógicas! Desde a primeira proposta, a OSC é convidada a reunir as pessoas que fazem parte do seu dia a dia, pois são elas que representam a riqueza e a diversidade da organização. 

Acreditamos que a melhor maneira de considerar os marcadores sociais como valor é dar voz a toda e cada uma das pessoas que participam das atividades que são desenvolvidas na OSC. 

Conviver e gerar informações – esse movimento é fundamental para ampliar e aprofundar a percepção sobre o significado do que fazemos sem deixar ninguém de fora. As atividades da Estação 1 incentivam a participação e a criatividade, sem preconceitos. Afinal, um mais um é sempre mais que dois!

Programa: O que as organizações devem observar na formação de seus profissionais para que suas práticas sejam de fato inclusivas e compreendam a diversidade como valor?

Liliane Garcez: Sabemos que cada organização é única e possui uma identidade social que a define. E também que está inserida em um contexto social singular. Assim, a própria maneira como a OSC compreende esse contexto mobiliza pessoas. O desafio é envolver todas, sem exceção. Nunca é demais lembrar que a discussão sobre diversidade não se refere “apenas” a um segmento ou de uma parte da população. Diz respeito a todas e todos nós! 

No dia a dia, convivemos com mulheres, homens, adultos, crianças, adolescentes, idosos, heterossexuais, gays, lésbicas, travestis, transgêneros, negros, brancos, indígenas, orientais, pessoas com deficiência, pessoas de diferentes etnias e procedências. Sabemos, portanto, na prática, que a humanidade é diversa, que o território onde atuamos é diverso. E mais, dentro de cada um dos marcadores sociais, há muitas diferenças. Ou seja, os adultos, por serem adultos, não são iguais entre si; os negros, também não, os indígenas, tampouco. Nós temos vários desses marcadores juntos. Posso ser uma mulher, branca, adulta, lésbica etc. E todos temos o mesmo valor enquanto pessoas! 

Perceber quão diferentes foram as pessoas que construíram a organização que somos hoje é importantíssimo. Assim como é fundamental perceber quem não está sendo chamado a participar e mudar a rota para agregá-los dentro e fora da OSC. Produzir uma Linha do Tempo requer diálogo entre profissionais, público atendido, seus familiares e pessoas da comunidade. Ouvir atentamente as memórias pode dar boas pistas do que já fazemos para valorizar as diferenças e os caminhos que ainda precisamos traçar.

Programa: Como as OSCs podem promover uma cultura de inclusão e valorização da diversidade no território em que atuam?

Não deixar ninguém de fora! Não há formas de nos prepararmos para atender essa ou aquela criança ou adolescente. Ou para contratarmos esse ou aquele profissional. Nós nos preparamos na convivência, quebrando as barreiras que se erguem nas relações cotidianas.

A ideia não é preencher um álbum com pessoas diferentes umas das outras para aparecer bonito na foto. Valorizar a diversidade é mais do que isso. Tem a ver com relações não hierarquizadas pelos marcadores sociais. O que quer dizer isso? Que a opinião de um homem não seja mais valorizada do que a de uma mulher, que o posicionamento de uma pessoa heterossexual não tenha mais fundamento que uma pessoa homossexual simplesmente por conta de gênero ou sexualidade.

No caso da pessoa com deficiência, a desvalorização, muitas vezes, aparece quando sua participação é considerada “café com leite”, por exemplo. Ou ainda como super-herói, sobre quem tecemos pensamentos do tipo: se ele conseguiu todo mundo pode. Nesse movimento, estamos falando mais de nós mesmos do que dos outros.

Valorizar a diversidade no território tem a ver com cidadania e não com caridade. Às vezes, por desconhecermos algo de que não precisamos, não conseguimos dar valor. Por exemplo, acessibilidade. Se eu assisto a um vídeo que não tem legenda, nem audiodescrição, nem janela de LIBRAS, não sinto falta. Por quê? Porque o áudio e a imagem são suficientes para que eu tenha acesso ao conteúdo todo. Movimento contínuo é não dar valor para essas ferramentas de acessibilidade e achar, por exemplo, que elas são supérfluas e difíceis de fazer, custam caro, são para poucas pessoas, não valem a pena! Mas, se eu precisar dessas ferramentas, daí passo a dar valor. Nosso esforço para construir uma sociedade inclusiva é que possamos deslocar esse olhar e entender que o vídeo melhora quando é mais acessível. 

Não é exclusivamente uma questão de atender a uma demanda, e sim não deixar ninguém de fora. Uma educação que deixa pessoas de fora não é uma educação de qualidade. A convivência é, portanto, indutora da ampliação de nossos repertórios e do aprimoramento de nosso fazer enquanto OSC!

Programa: Em relação à pessoa com deficiência, fala-se em dois modelos na educação: o médico e o social. Pode falar um pouco desses dois modelos e quais as implicações de se adotar um ou outro nas práticas de educação integral e inclusiva?

Atualmente, vivenciamos esses dois paradigmas: da integração e da inclusão, ou modelo biomédico e compreensão social da deficiência. Ou seja, estamos em movimento para alterar a relação socialmente estabelecida entre nós para que a participação plena de todas e todos e de cada uma das pessoas com ou sem deficiência se torne realidade.

Para tanto, chegamos à conclusão de que nossos esforços devem se concentrar na quebra das barreiras que se interpõem entre os impedimentos físicos, sensoriais, intelectuais ou mentais e essa participação. Os efeitos desses esforços são benéficos para toda a sociedade!

De forma geral, o modelo biomédico trabalha com binômios: normalidade/anormalidade, saúde/doença. Como decorrência dessa leitura de mundo, a deficiência é entendida como um problema pessoal que carece de um tratamento voltado às funções corporais e sensoriais, com vistas a aproximá-las do que é compreendido como normal. Nessa visão, os fatores de sucesso sempre estão relacionados à capacidade individual de superação.

Na perspectiva social, os corpos, ritmos e habilidades são compreendidos como características humanas. As deficiências deixam de ser compreendidas como doenças ou obstáculos no o trabalho da OSC, por exemplo, e passam a ser um valor de enriquecimento dos sempre desafiadores contextos.

O respeito e a valorização da diversidade se configuram como uma questão de toda a sociedade, que passa a atuar e demandar por mudanças sociais e atitudinais. Seus fatores de sucesso estão relacionados à equiparação de oportunidades e à diminuição de barreiras. Nessa luta, romper com a barreira atitudinal está ao alcance de todas e todos nós.


Veja também:

A diversidade entre as mediadoras e os mediadores no Programa Itaú Social UNICEF: confira noticia “Passos diversos em um percurso coletivo“.

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