Na festa da diversidade, é nosso dever desconstruir o racismo estrutural e adotar práticas antirracistas

“Enquanto a questão negra não for assumida pela sociedade brasileira como um todo: negros, brancos e nós todos juntos refletirmos, avaliarmos, desenvolvermos uma práxis de conscientização da questão da discriminação racial neste país, vai ser muito difícil no Brasil, chegar ao ponto de efetivamente ser uma democracia racial.”

Lélia Gonzalez

A diversidade e a inclusão, temas transversais inseridos nos três eixos do Programa Itaú Social UNICEF – desenvolvimento institucional; desenvolvimento integral de crianças e adolescentes; e articulação no território –, muito provavelmente são o ponto de partida para que as Organizações da Sociedade Civil (OSCs) possam abraçar, de fato, um trabalho transformador na educação integral e inclusiva de crianças e adolescentes. Fazendo um paralelo à citação da ativista Vernã Myers – “Diversidade é chamar para a festa. Inclusão é convidar para dançar” –, novas reflexões podem (e devem) ser feitas, desta vez incluindo o conceito da equidade, que bem poderia ser um convite para “escolher a música para dançar na festa”.

De abrangência bastante ampla, a diversidade envolve os marcadores sociais de raça, etnia, gênero, sexualidade e da pessoa com deficiência. Com o intuito de propor uma reflexão às OSCs e levá-las a observar as próprias ações e posturas diante desses marcadores sociais, algumas vozes foram convidadas para contribuir com seus respectivos olhares e análises sobre o racismo e as consequências que os preconceitos de raça e etnia trazem à vida de crianças e adolescentes, suas famílias, seus espaços de convivência e aprendizado, seus territórios.

Ao trazer a experiência de educadores(as) e especialistas em educação e diversidade, pretende-se apresentar uma visão ampliada de quem está “na ponta” e nos bastidores, para debater, ainda, sobre como desconstruir o racismo estrutural, como tomar consciência e rever termos e hábitos naturalizados ao longo dos anos, e partir em busca de práticas antirracistas. Desta forma, as OSCs poderão construir relações mais justas e equitativas em seus territórios e, assim, transformar a realidade. Fazendo um paralelo à citação de Vernã Myers, permitir que todas e todos possam ir à festa, dançar, escolher a música e “permitir que quem não sabe dançar possa se divertir também”, tal qual sugere outro ativista pela diversidade e inclusão, Noah Scheffel, fundador do EducaTRANSforma, voltado para pessoas transgênero.

O que é racismo estrutural?

Juliana de Souza Mavoungou Yade

Segundo pontua a especialista em educação Juliana Yade, da área de pesquisa e desenvolvimento do Itaú Social, o racismo estrutural é a naturalização das práticas de racismo que estão no tecido social e fazem parte da formação cultural do Brasil. “O racismo, por muito tempo, foi historicamente negado, então, o racismo estrutural é uma violência que está sempre ligada à questão do afrodescendente do Brasil e está em muitos âmbitos, tanto das relações cotidianas quanto das instituições”.

Esdras Soares

O professor e pesquisador da área de Educação das Relações Étnico-raciais Esdras Soares, acrescenta: “normalmente, quando se fala sobre racismo, a tendência da maioria das pessoas é pensar apenas em xingamentos racistas e discriminações raciais explícitas. No entanto, como definiu o professor Silvio Almeida, um dos maiores intelectuais brasileiros, o racismo não é uma ‘patologia’ ou algo fora da regra e do normal – pelo contrário, o conceito de racismo estrutural explicita que o racismo é justamente o padrão de normalidade da nossa sociedade. Isso significa que todas as nossas relações são atravessadas e mediadas pelo racismo”.

Esdras levanta uma questão para exemplificar essa ‘normalidade’: “Por que a maioria das pessoas se acostumou a ver apenas pessoas brancas em cargos de liderança, de tomada de decisões e posições de poder? O mesmo acontece no Congresso, na TV e nas grandes empresas. E por qual razão a população negra é a mais atingida pela pandemia do coronavírus? Justamente porque existe uma organização socioeconômica que coloca pessoas negras em situação de maior vulnerabilidade. Isso é o racismo estrutural”, pontua.

História, herança e problema de todas e todos

Para Juliana, o primeiro passo para reverter o racismo estrutural é entender que o racismo não é um problema da população negra ou indígena, mas da população como um todo. O segundo é reconhecer que essa estrutura racista é uma herança que coloca a população negra em uma situação pior diante do mundo.

Quando a própria Constituição dizia que a educação tinha de priorizar as questões da eugenia, a gente olha para um lugar que não reconhece e não dá lugar para o povo negro. Então, à medida em que a população negra herdou esse não acesso à educação e saúde de qualidade, outra população teve acesso simplesmente por não ser negra. E o que seguimos vendo até os dias de hoje são as pessoas não negras tendo mais acesso a tudo. Por isso é necessário priorizar as políticas públicas, pois quando olhamos os dados da educação, a gente ainda vê pessoas negras com menos anos de escolarização, e quando olhamos para a questão da mortalidade, observamos que crianças negras morrem mais do que as não negras.

Juliana de Souza Mavoungou Yade

Washington Góes

O educador Washington Góes levanta a questão sobre a necessidade de corresponsabilidade e criação de políticas públicas que sejam capazes de reparar essa herança, e vai além. “O racismo é uma relação de poder em que uma determinada raça (a branca) subjuga a outra (a preta), se manifesta em todas as dimensões (cultural, social, política, entre outras) e assegura um privilégio para a raça que domina. Não é apenas um comportamento, e sim uma ideologia arquitetada. Estamos muito longe de acabar com o racismo, primeiramente é necessário que as pessoas que foram beneficiadas com o escravismo colonial abram mão de seus privilégios. Necessitamos de políticas que reparem toda a herança maldita que a sociedade escravocrata reservou aos descendentes de africanos no Brasil. Sem inclusão e equidade é impossível pensar em acabar com o racismo”.

“Compreender o racismo como estrutural e estruturante não significa que políticas e ações sejam pouco efetivas – na verdade elas são extremamente necessárias. Também não quer dizer que os indivíduos têm pouca ou nenhuma responsabilidade sobre seus atos, pois se o racismo não é um ato isolado, é papel de todos combatê-lo, em ações individuais e coletivas”, explica Esdras.

Como desmontar a estrutura racista?

Educação dentro e fora das escolas

Chai Odisseiana

A MC, compositora, arte-educadora, produtora cultural e artesã Chai Odisseiana lembra que entre as muitas injustiças da época da colonização do Brasil, “uma das piores foi impedir que o povo negro manifestasse sua cultura, seus costumes, suas crenças, suas ideologias, sem contar na violência e morte para quem batia de frente e não concordava com essas atrocidades”. Ela explica que a desconstrução da estrutura racista deve vir com a verdade sobre a história e deve começar com a educação. “Na escola que eu frequentei, nunca aprendi sobre a história do meu povo. Hoje vejo que muitas professoras e muitos professores fazem a diferença para uma educação antirracista, mas são boicotadas e boicotados a todo momento, o sistema massacra e impede os avanços. Estamos começando a fazer uma mudança, não na proporção que queríamos e que precisamos, mas, pelo menos, já temos relatos de que referências como Luiz Gama estão sendo citadas nas escolas”, conta.

Equidade de raça e etnia na educação

Góes concorda que é pela educação, mas faz um alerta e acrescenta a necessidade de um processo profundo de formação continuada com todos os segmentos que compõem a comunidade escolar, pois crianças e adolescentes precisam se reconhecer nas pessoas. “Parafraseando Paulo Freire, sozinha a educação não muda a sociedade. A escola pode ajudar com problematizações e abordagens positivas sobre a população preta na história. Porém, a sociedade precisa criar condições para ter educadoras(es), gestoras(es), coordenadoras(es) pretas e pretos. Isso vai muito além da abordagem da Lei 11645/08 (que determina incluir no currículo oficial da rede de ensino a obrigatoriedade da temática ‘História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena’)”, explica.

“Vale lembrar que isso por si só não será suficiente se a população preta continuar sendo encarcerada, ser maioria entre as pessoas desempregadas, ser maioria em situação de rua ou o jovem preto continuar sendo vítima do genocídio”, acrescenta Góes, que é coordenador regional do projeto Educação com Arte, que desenvolve oficinas culturais para adolescentes que estão cumprindo medida socioeducativa de internação na Fundação Casa. Colega no projeto Educação com Arte, Chai concorda com Góes: “Eu acredito muito em uma educação que não é feita somente em ambiente escolar, mas em outros espaços dentro das periferias, levantando o diálogo sobre o tema e compartilhando as histórias do nosso povo”.

Enfrentamento sistêmico

No trabalho educacional com crianças e adolescentes, há uma série de caminhos delineados há bastante tempo. Nas Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana há diversos princípios que orientam uma prática antirracista, como o reconhecimento dos diversos grupos que compõem a sociedade brasileira, a valorização da história dos africanos e seus descendentes no Brasil, o enfrentamento da ideologia do branqueamento, o estudo da cultura afro-brasileira, a desconstrução de estereótipos racistas, a representação positiva de pessoas negras nos materiais didáticos, a formação de professores e educadores, entre vários outros aspectos.

“Também devemos pensar em questões como a necessidade de se garantir o vínculo de crianças e adolescentes negros(as) com a escola, de pensar as avaliações, as propostas político-pedagógicas; todo um universo de possibilidades e necessidades. Sem dúvida, isso vale para espaços educativos formais como a escola, mas também para os não-formais. Certa vez, eu entrevistei a escritora Heloisa Pires Lima e ela disse que ‘Falar a respeito do racismo com crianças é importante, mas desmanchá-lo é muito mais. É necessário ampliar as temáticas, as correlações, para perceber humanidades negras, o modo de unir o lúdico às questões raciais’. Eu gosto bastante dessa fala, porque mostra que uma das possibilidades de enfrentamento do racismo é uma abordagem positiva da trajetória e história da população negra”, conta Esdras.

“Deve-se olhar para a história dessa criança e desse adolescente para obter o reconhecimento e aceitação dessa história. Como a gente estrutura essa história dentro da vivência dele(a)? Então, é olhar essa história de forma que valorize o seu pertencimento tanto no território, na escola, quanto racial e étnico”, explica Juliana. “Outro ponto fundamental é o movimento estético, para trazer a ressignificação da beleza estética dessa criança e desse adolescente a ponto de ele desejar ser quem ele é. Muitas vezes, os padrões impostos não fortalecem. Essa história tem sotaque, cabelo, cor de pele, pertencimento que precisa ser valorizado”, completa.

Algumas atitudes antirracistas

  • Reconhecer que o racismo é uma realidade e verdadeiramente trabalhar para mudar esse panorama
  • Desnaturalizar a violência e as privações impostas à população negra e indígena
  • Discutir a questão racial todos os meses (e não apenas no mês de novembro)
  • No caso das pessoas brancas, é necessário que elas se entendam como tal. Ou seja, pensar em si mesmas dentro dessa perspectiva (e não como sendo o “normal”, o que traz consequências nefastas)
  • Equidade com inclusão: criar, de fato, políticas que incluam a população preta e indígena
  • Quebra de paradigma e mudança de mentalidade da sociedade (ainda colonial)
  • Desigualar para igualar: que pessoas que estão em alguma posição de poder abram mão de privilégios
  • Acabar com os mecanismos de barragem, que estão em todas as esferas da sociedade e impedem as populações pretas e indígenas ascenderem ou acessarem alguma forma de inclusão na sociedade
  • Combater discriminação e preconceito a todo momento com ações valorativas (reconhecer as populações pretas e indígenas como protagonistas de suas histórias) e punitivas (criminalizar todas as formas de discriminação e racismo)
  • Apresentar referências reais (seja na TV, seja entre escritores, intelectuais, artistas e profissionais de diversas áreas) para crianças e adolescentes
  • Diálogo e troca de vivências com negros e negras de vários segmentos profissionais, compartilhando suas experiências e o que percorreram para estar no caminho que estão hoje
  • Educação, luta (para a sociedade não aceitar atitudes que inferiorize e/ou desqualifique), diálogo (para impor com eficácia e respeito) e paciência (evitar a violência)
  • Educar crianças e adolescentes negras e negros para que se aceitem
  • Promover a visibilidade da potência da população negra, como produtora de conhecimento
  • Contar histórias e trazer narrativas de personagens e personalidades que compõem a população negra
  • Conscientizar crianças, adolescentes e educadores(as) de que esse lugar de produtores de conhecimento é acessível para todas e todos
  • Se posicionar quando vir um ato racista e manifestar sua indignação

Se posicionar não é confortável, por isso muitos não fazem. Mas mais desconfortável é não tomar nenhuma atitude para mudar esse cenário. O silêncio não pode se fazer presente nessa construção. A denúncia e a exposição são formas de fazer pessoas racistas entenderem que ‘chega, isso tem que acabar!’

Chai Odisseiana

Para saber mais e refletir

Livros

O que é racismo estrutural?, de Silvio Almeida

Memórias da plantação, de Grada Quilomba

O escravismo colonial, de Jacob Gorender

Dialética Radical do Brasil Negro, de Clovis Moura

Amora, livro infantil, do Emicida

Filmes

Doutor Gama, de Jeferson De

Menino 23, de Belisário Franca

A Hora do Show, de Spike Lee

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