Diversidade é palavra feminina: reflexões para enfrentar o machismo e as discriminações de gênero

No dia 8 de março, data em que celebramos o Dia Internacional da Mulher, cada vez mais pautas emergem nos espaços de debate, formação e política. Muito se fala sobre a data como homenagem às 129 operárias de uma fábrica têxtil que morreram carbonizadas, vítimas de um incêndio intencional nesta mesma data, em 1957, em Nova York. Mas o 8 de Março tem raízes mais antigas, em 1910, com a luta pelo voto feminino. 

Se no início do reconhecimento do 8 de março como uma data de luta o voto feminino era a principal pauta, hoje as bandeiras e frentes de reivindicação das mulheres são maiores, múltiplas e dão conta da diversidade de mulheres cada vez mais organizadas. As mulheres lutam contra a violência patriarcal, o machismo que atinge desde meninas às mais velhas, o racismo estrutural, a lesbofobia e a transfobia. 

É diante dessa emergência de temas que marcadores sociais como raça, etnia, gênero, sexualidade e pessoas com deficiência ganham cara e corpo na luta das mulheres por direitos e pela vida. Sendo diversas, é com o reconhecimento da diversidade como potência feminina que se combate o machismo. 

Com as OSCs isso não é diferente, mas não deixa de ser um desafio  incorporarem às atividades e práticas diárias meios de enfrentar o machismo e as discriminações de gênero. Os desafios de enfrentar as discriminações estruturais que atingem mulheres cis, trans, negras, indígenas, com deficiência, lésbicas e bissexuais na formação de crianças e adolescentes começa com um dever de casa: refletir sobre as próprias práticas e formar as equipes para a compreensão da diversidade e do enfrentamento às opressões.

Diversidade e interseccionalidade 

Caroline Bispo

Quando os movimentos de mulheres escolhem como tema a luta “pela vida das mulheres” é preciso reconhecer que somos muitas, diversas e, portanto, é preciso um olhar interseccional para as lutas. É o que compartilha Caroline Bispo, cofundadora e diretora da Associação Elas Existem-Mulheres Encarceradas, uma organização que nasce com o DNA feministra interseccional no trabalho em prol das mulheres cis e trans privadas de liberdade no sistema penitenciário e de adolescentes cis e trans do sistema socioeducativo feminino. 

Segundo Kimberlé Crenshaw, teórica feminista e professora estadunidense especializada em questões de raça e gênero que sistematizou o conceito de interseccionalidade, trata-se de

“… uma conceituação do problema que busca capturar as consequências estruturais e dinâmicas da interação entre dois ou mais eixos da subordinação. Ela trata especificamente da forma pela qual o racismo, o patriarcalismo, a opressão de classe e outros sistemas discriminatórios criam desigualdades básicas que estruturam as posições relativas de mulheres, raças, etnias, classes e outras. Além disso, a interseccionalidade trata da forma como ações e políticas específicas geram opressões que fluem ao longo de tais eixos, constituindo aspectos dinâmicos ou ativos do desempoderamento” (2002).

*Fonte: Renshaw, K. Documento para o encontro de especialistas em aspectos da discriminação racial relativos ao gênero. University of California. Los Angeles.

O Elas Existem nasce da constatação de que o encarceramento é maior para mulheres negras no Brasil. Em 2020, o Acre, estado onde a organização atua, das 280 mulheres encarceradas, 252 eram mulheres negras. No trabalho com as mulheres, a questão da raça caminha lado a lado e precisa ser compreendida em sua estrutura, explica Bispo. 

O olhar para mulheres e adolescentes negras privadas de liberdade é o que guia as ações da organização, que trabalha dentro de unidades prisionais, mas também na visibilização dessas pessoas e de seus direitos. Por isso, o Elas Existem passou a investir na comunicação como ferramenta estratégica, além do trabalho de base dentro de unidades prisionais e socioeducativas, da incidência política e da produção de informação, com pesquisas e estudos. 

Dessa experiência, Caroline faz questão de pontuar, por exemplo, que é preciso nomear mulheres trans e cis, assim como lembrar que adolescentes transmasculinos também precisam ser vistos por organizações que desenvolvem trabalhos no sistema socioeducativo. 

O princípio das ações com as adolescentes, segundo Caroline compartilha, é a escuta ativa, afetiva e a construção de combinados junto com elas e eles. É a partir desse ponto que a organização começa a entender como e onde estão as questões que tal grupo enfrenta. “Nós fazemos uma escuta afetiva, parece simples, mas a escuta é importante. A  gente faz uma roda vida, dá dois minutos para que cada um se apresente e todos em volta desenhem”, conta. 

Para ela, apesar dos desafios no trabalho contínuo com os grupos atendidos, o mais desafiador é, na verdade, explicar para a sociedade que existem adolescentes privadas de liberdade e mobilizar pessoas, financiadores e apoiadores para investir em ações como essa. 

“A gente consegue apoio para atividades pós aprisionamento. Mas precisamos repensar isso antes que estejam lá”, aponta. “A gente entende que nossas lutas no Elas Existem é muito mais do que falar. Nosso trabalho é muito mais intramuros, mas se a gente consegue melhorar nossa comunicação para o mundo e demonstrar que elas existem, isso é fundamental. Nós aqui fora devemos ser ferramentas para dizer que elas existem”.

Desafio coletivo de combater o machismo nas escolas, OSCs e sociedade

Débora Almeida de Souza

Para a professora e mestre em educação Débora Almeida de Souza, coordenadora da Comissão de Educação em Direitos Humanos da Secretaria Municipal de Educação de Vitória/ES, quando falamos sobre incluir a diversidade e equidade em organizações que trabalham com crianças e adolescentes e no ambiente escolar, um dos principais desafios está no processo de formação de profissionais da educação. “É urgente pensar em processos formativos que possibilitem conhecimentos, saberes e práticas que promovam o empoderamento e autonomia dos profissionais da educação, que os direcionem como atores na vida social”, diz.

Ela chama atenção para o processo histórico de inserção do debate sobre inclusão e mesmo as questões de gênero, que ainda são objeto de disputa política e ideológica nos ambientes de formação. Como parte da sociedade, todas as pessoas, inclusive profissionais que se dedicam a enfrentar o machismo e outras opressões, têm que desconstruir percepções e ideias que estão estabelecidas socialmente. 

“A diversidade não se configura na diferença e, sim na multiplicidade”, afirma Débora, que destaca como investir em saberes e formações sobre educação em direitos humanos, questões étnico-raciais, sexualidade e diversidade sexual, diversidade religiosa e de pessoas com deficiência é fundamental nesse momento.

“O que podemos marcar como diferença aqui? Podemos falar em especial daquelas que impactam vidas, como a que é manifesta na cor da pele, nos corpos que não atendem aos padrões de beleza, na manifestação do desejo e na construção da sexualidade, nas manifestações dos princípios de fé e espiritualidade e até mesmo nas pessoas com deficiência”, explica a gestora. 

A partir do ambiente escolar, Almeida provoca a pensar pontos que podem ser levados também para os espaços de OSCs. Ela afirma que “é preciso que a escola também olhe para dentro e ressignifique práticas cotidianas que sustentam o pensamento e comportamentos machistas”. Ela compartilha algumas perguntas, pontos de partida para uma reflexão:

  • O que as paredes informam e formam sobre o que se compreende por feminino e masculino, como por exemplo símbolos que identificam os banheiros de meninos e meninas?
  • Como a quadra é compartilhada entre meninos e meninas?
  • Desde a educação infantil, como são organizados os brinquedos e brincadeiras?
  • O que é dialogado na sala dos professores sobre os papéis femininos e masculinos?

O dever de casa, nesse sentido, começa no momento em que as equipes refletem sobre suas práticas, sobre o entorno. É nesse movimento que se percebe como podem avançar na construção de um currículo, de uma abordagem que garanta também aos/às profissionais condições de enfrentar tais questões.

“O contexto atual requer muito compromisso e habilidade por parte da escola no que se refere a inserir o debate de questões de gênero. Diante da proibição desse debate nas escolas e da crescente confusão de associar o debate de gênero à ideologia de gênero, expressão defendida pelo movimento conservador escola sem partido, somos confrontados/as com o alarmante aumento de violências praticadas contra mulheres, população LGBTQIA+ e população negra”, analisa Débora.

Vivências e desafios para as OSCs

Com um plano de intervenção focado em garantir às crianças e adolescentes negras maior vivência no território, contribuindo para uma formação participativa e emancipatória, levando em conta a diversidade cultural, inclusão social, protagonismo e o enfrentamento da discriminação e violência de gênero e raça, a Ação Social Arquidiocesana de Palmas – ASAP, em Palmas, no Tocantins, vem lidando com essas questões no último ano. 

Judite da Rocha

Judite da Rocha, coordenadora pedagógica do plano de intervenção da Ação Social Arquidiocesana de Palmas – ASAP, partilha a experiência de como o trabalho com a cultura, a música e o teatro vem dando vazão às expressões das e dos adolescentes com que a OSC trabalha. É a partir desse espaço criativo, de escuta e construção conjunta que elas/eles vêm enfrentando a discriminação de gênero, a violência contra a mulher, as dificuldades de reconhcimento da sexualidade.

“Nós partimos do mapa afetivo e os/as adolescentes que propõem os temas. Eles/elas escrevem a partir dos seus sentimentos, daquilo que vivem nas suas realidades, de quais temas eles queriam abordar. Assim as questões se tornam mais leves de serem debatidas nas rodas de conversa. Quando se transforma de forma lúdica eles/elas têm mais facilidade de assimilação e, consequentemente, de se fortalecer e ter a coragem de assumir suas identidades tanto na questão de gênero quanto de raça. Vejo isso como um salto”, conta Judite.

No trabalho com as/os adolescentes, ela destaca que os debates com relação à questão de gênero têm foco na violência, uma vez que a OSC desenvolve também um trabalho com meninas grávidas. “No combate ao machismo, esse é o tema vivenciado pelas meninas. Essa gravidez muitas vezes é fruto de uma violência, do machismo. Então temos feito primeiro esse trabalho de dialogar, por meio das rodas de conversa, e auxiliar no encaminhamento a outros serviços, caso precise”.

Como aprendizado, ela aponta que as meninas vêm se mostrando cada vez mais empoderadas, assumindo o protagonismo dos debates. Ainda assim, Judite encara como um desafio para as OSCs e outras instituições atuarem em rede para garantir políticas públicas destinadas a essa juventude.

“Precisamos compreender o espaço não só no âmbito territorial, mas também o espaço dessas pessoas. A violência e a discriminação ainda são muito fortes. Então precisamos ampliar a rede de cuidados e pensar numa formação integral para nossas crianças e adolescentes, não em pedacinhos, e vivenciar isso em diversos espaços onde eles/elas estão”, diz.

Na caminhada para promover uma educação integral e inclusiva que compreenda e avance no enfrentamento às opressões de gênero, raça, sexualidade e outras, as OSCs têm a oportunidade de desconstruir práticas que já não cabem mais e adotar posturas que abracem a diversidade, a escuta ativa e afetiva de crianças e adolescentes. 

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