Desenvolvimento Institucional: como identificar desafios e construir condições para o fortalecimento das Organizações da Sociedade Civil

O fortalecimento institucional é fundamental para o trabalho das Organizações da Sociedade Civil (OSCs) e torna-se ainda mais essencial diante de um cenário tão desafiador como o atual. Esta, também, é uma das temáticas enfocadas pelo Programa Itaú Social UNICEF, cujo objetivo é oferecer assessoria técnica e fomento financeiro para que as organizações aprimorem suas práticas voltadas para a educação integral e inclusiva de crianças e adolescentes em seus territórios. 

Walquíria Tibúrcio

Para refletir sobre o assunto, entrevistamos Walquíria Tibúrcio, sócia na Move Social, consultoria que apoia organizações na ampliação e qualificação dos impactos social e socioambiental. Especialista em avaliação, Walquíria desenvolve trabalhos envolvendo educação e questões de equidade racial e de gênero. É bacharel em Gestão de Políticas Públicas e especialista em Estudos Brasileiros pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo. Na área social, colaborou com diversas organizações, incluindo o Instituto Saci, do qual foi presidente de 2012 a 2016. Entre seus desafios pessoais está a formação de avaliadoras(es) antirracistas. Também é fundadora do movimento Lente Preta – Avaliação e Equidade Racial.

Qual a importância do desenvolvimento institucional para as Organizações da Sociedade Civil (OSCs)?

Algo bastante comum de escutarmos quando falamos deste tema é que o fortalecimento das Organizações da Sociedade Civil (OSCs) concorre para o amadurecimento e consolidação da democracia. As OSCs compõem nosso tecido social e atuam na perspectiva de assegurar direitos sociais e, neste sentido, é relevante que construam intencionalmente processos de desenvolvimento institucional. Digo intencionalmente, pois Desenvolvimento Institucional (DI) é o processo de mudança que acontece nas organizações e ele é impulsionado pelo contexto externo à organização, mas também interno, portanto não é uma escolha, ele é inerente a um organismo vivo, como é o caso das organizações e, neste sentido, acontece independentemente do desejo dela. Construir caminhos intencionais de Desenvolvimento Institucional diz respeito a olhar para si de maneira estruturada e organizada a fim de identificar seus desafios, visando construir condições para avançar e se fortalecer. A importância está neste exercício reflexivo honesto que, quando feito, fortalece a organização e potencializa sua atuação na medida em que coloca a OSC neste processo de (re)conhecer suas práticas e processos à luz das necessidades da sociedade e das suas próprias.

Por que as organizações devem, primeiramente, refletir sobre os aspectos de desenvolvimento institucional e quais os pontos a serem considerados?

No contexto atual marcado pela retração de direitos e crises econômica e ambiental agudas, os trabalhos das OSCs colocam-se mais necessários e, pelo contexto, infinitamente mais desafiadores. Refletir sobre si, suas práticas, seu fazer e lugar no mundo ajuda as organizações a oferecer melhores serviços às comunidades nas quais estão inseridas. Lembrando que nenhuma organização é igual, assumimos que são diversas, plurais e únicas e, por isso, conduzirão processos de DI diferentes. Entretanto, eu arriscaria pontuar 3 questões importantes de serem cuidadas quando falamos de DI e que podem, em alguma medida, serem colocadas para o conjunto de organizações. Importante lembrar que existem muitos outros pontos, trago luz para 3, mas há outros caminhos que também precisam ser cuidados neste processo. 

O primeiro é a leitura do contexto social em que a OSC está imersa, buscando compreender que questões esse território carrega. Quais são as demandas latentes das pessoas que ali vivem? É importante que a organização se pergunte em que medida sua existência dialoga com estes desafios. Qual é sua relevância para aquela comunidade?

O segundo é construir um processo efetivo de avaliação de suas práticas, tanto internas, conduzindo processos de avaliação institucional, quanto externas, compreendendo o alcance e limites de suas estratégias. Compreender o quão efetiva é sua atuação dispara e alimenta muitos outros processos dentro de cada organização. 

O terceiro, que pode ser considerado de maneira transversal, mas que sinto que quando não o nomeamos podemos produzir a falsa sensação de que estamos lidando com ele sem realmente construir estratégias efetivas, diz respeito à equidade. Este é um ponto que está colocado para todas as instituições e que influencia o todo de suas práticas. Trago aqui algumas perguntas para que possamos visualizar em quantas camadas este ponto tem sua relevância:

  • A organização reconhece o combate às desigualdades estruturais de gênero e raça como fundamentais?
  • Qual é a diversidade da minha equipe em termos de gênero, raça, condição social, condições físicas e sexualidade, por exemplo? A diversidade da equipe se expressa em todos os níveis hierárquicos da organização?
  • O quanto minha equipe está preparada para acolher e encaminhar casos de racismo, capacitismo, LGBTQIA+fobia, sexismo, entre outros?
  • As práticas pedagógicas implementadas consideram abordagens que dialogam com perspectivas interseccionais e contra hegemônicas?
  • A comunicação da minha organização considera uma linguagem neutra e acessível?
  • Minha organização conhece a composição de seu grupo de beneficiárias(os) em termos de gênero, raça, sexualidade e constrói estratégias para lidar com as diferenças?

Os(As) profissionais da equipe técnica são essenciais para as organizações, pois transformam relações e realidades nos territórios onde atuam. Como promover as capacidades da equipe?

As equipes técnicas são a “cara” da organização. De um lado, temos as equipes de campo que são responsáveis por estreitar os laços com o público atendido e têm a missão de construir espaços de diálogo e escuta com a comunidade a todo momento. Enquanto as pessoas que assumem funções administrativas, por exemplo, têm a missão de sedimentar práticas e construir processos. Ambas são complementares e relevantes e atuam para realizar a missão da organização. O saber técnico, que diz respeito aos conhecimentos acumulados para exercer as respectivas funções, deve ser exercitado não apenas na execução do trabalho, mas também no convite à reflexão sobre a própria prática. Fomentar espaços de aprendizagem que apoiem reflexões e leituras sobre o fazer, momentos de avaliação e/ou feedback entre as equipes, realização de formação em tópicos e temas específicos percebidos como necessários para renovar e adensar as práticas e criação de espaços para escuta das demandas e necessidades da equipe, são todos movimentos importantes e que buscam cuidar do maior ativo das organizações: as pessoas. 

De que maneiras as organizações podem valorizar as ações voltadas para a diversidade para promover o desenvolvimento institucional?

Este tema é relevante e já tratei sobre ele anteriormente. É um aspecto que confere relevância para as organizações. Temos organizações que atuam no marco da promoção e garantia da equidade considerando, por exemplo, a desigualdade racial e de gênero, entretanto é importante salientar que este tema não é exclusivo apenas para estas OSCs que têm o tema como preocupação política e programática, a diversidade ou, melhor dizendo, equidade é ou deveria ser um imperativo ético de todas as instituições, mesmo aquelas que não atuam com a pauta de maneira central.

Dito isso, minha leitura é que o modo mais eficaz de lidar com a questão é torná-la uma agenda institucional. É bastante comum que este tema seja preocupação de determinadas pessoas dentro de uma organização, mas para que ele ganhe força é necessário que a pauta seja da instituição. Será necessário construir caminhos de fortalecimento das equipes para tratar do tema com o público atendido e com a comunidade de maneira geral e é crucial que as lideranças estejam engajadas neste processo a fim de criar um espaço de segurança para tratar sobre o tema.

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