Desafio que vale a pena: Organizações da Sociedade Civil compartilham suas experiências com o desenvolvimento institucional

A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos.
Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei.
Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar

Fernando Birri, citado por Eduardo Galeano.

O caminho do desenvolvimento institucional  requer compromisso para efetivar a missão da organização a partir do movimento, da atenção e escuta dos territórios em que atuam, dos profissionais da instituição e das crianças e adolescentes atendidos. Para as Organizações da Sociedade Civil (OSCs)  com muitos anos de atuação, assim como para as mais jovens, esse percurso é um momento chave com relação ao fortalecimento institucional e alinhamento das ações com os objetivos e missão. 

Além disso, é um dos eixos de trabalho do Programa Itaú Social UNICEF, cujo objetivo é oferecer assessoria técnica e fomento financeiro para que as organizações aprimorem suas práticas voltadas para a educação integral e inclusiva de crianças e adolescentes em seus territórios.

Nessa caminhada desafiadora, um farol para as organizações é conhecer as trajetórias, experiências, percalços e descobertas de outras OSCs que se dispuseram a fazer o mesmo trabalho e mergulhar no desenvolvimento institucional. Por isso, compartilhamos as histórias e percepções de três organizações que estão, nesse momento, passando por revisões, formações e revendo os seus processos de desenvolvimento institucional. À primeira vista, pode parecer uma utopia, mas os relatos trazem perspectivas valiosas e inspiradoras.

Ousar criar novos modelos de equipe

Ao longo de 23 anos o Instituto Hoju trabalha com crianças e adolescentes de periferias do Morro da Mangueira, no Rio de Janeiro, com objetivo de propiciar a emancipação da população afropindorâmica (descendentes de pessoas escravizadas e povos originários do Brasil), por meio de ferramentas e conteúdos que valorizem a diversidade étnico-cultural nas linguagens audiovisual, escrita, falada e Libras. Atualmente, vivem uma potente revolução no campo da comunicação institucional, com adolescentes assumindo esse papel em diálogo com a equipe da organização.

Kaká Portilho

Kaká Portilho, presidente do Instituto Hoju, partilha com entusiasmo a inovação que estão vivendo e que nasceu de uma dificuldade em montar uma equipe de comunicação profissional. A partir do programa Jovem Aprendiz, que já existia, decidiram ampliar e pela primeira vez abarcar o campo da comunicação. “Nós temos um Conselho que é formado majoritariamente por crianças e adolescentes, porque entendemos que como eles são os beneficiários diretos das nossas ações na área de educação eles precisavam fazer parte da construção do que vai ser desenvolvido. É o porquê e para quem, né? E aí nesse processo a gente pensou, por que não? Ao mesmo tempo nos vimos diante de algo super importante que é a comunicação institucional, de grande responsabilidade, mas que ao mesmo tempo fazia parte da filosofia institucional fazer essa incorporação”, explica.

Atualmente, três jovens estão passando por formações em diferentes áreas da comunicação (videomaker, influencer, design) e já criam junto com a equipe, sob mentoria de Kaká, produtos de comunicação a partir do princípio da circularidade. “A gente está procurando esse elo que une todas as redes do instituto e fazer da comunicação uma verdadeira ciranda. Nesse sentido, o processo de se rever está nos ajudando, sem dúvidas, nesse momento de realinhar, ou melhor, circularizar a nossa instituição”, diz Kaká.

Instituto Hoju

Para ela, tem sido um processo valioso de aprendizado não só dos(as) adolescentes, mas da equipe e da construção coletiva de como comunicar a diversidade e pluralidade de áreas em que o Instituto trabalha. “Esse mergulho é muito potente; estamos num processo de revisitar o nosso plano estratégico e principalmente nosso plano estratégico de comunicação. A partir daí vamos revisar a missão, a visão, os valores, o propósito e os objetivos. Está sendo muito importante essa revisão e esse momento nosso como instituição envolvendo os beneficiários, a comunidade. Assim como a participação de outras parcerias público-privada, para a gente está sendo imprescindível porque todo mundo deu suas contribuições”, diz.

“Hoje nós podemos ver que o profundo está sendo colocado pra fora. A gente mergulhou para dentro do ventre para através dele trazer tudo que a gente tem de melhor. Passado, presente e as perspectivas para o futuro estão se alinhando. Vemos o impacto nas crianças com os livros que trabalham a educação antirracista, ativam outra imagem da pessoa indígena, da pessoa afrodescendente”. À medida que tomaram uma decisão incomum, viraram uma chave para se conectar com os princípios que fundaram a organização, com base na ancestralidade e nos ensinamentos de resistência da população negra.

O desafio de mudar e preservar a missão

Leidyanna Tomé

A Organização das Voluntárias de Goiás (OVG) se debruçou sobre o desenvolvimento institucional com objetivo de avançar nas estratégias para alcançar a missão da organização, que pretende “promover com excelência a assistência social para reduzir a desigualdade e a vulnerabilidade socioeconômica e disseminar a cultura do voluntariado, incentivando a participação do cidadão”. Mas Leidyanna Tomé, coordenadora do Centro de Adolescentes Tecendo o Futuro – CATF, da OVG, destaca como a pandemia de Covid-19 levou a equipe a não só repensar como o trabalho poderia acontecer, mas influenciou também o percurso pensado para o processo de desenvolvimento institucional. 

Ao lado das reflexões da equipe sobre diversidade, território e questões referentes ao desenvolvimento no trabalho, que visavam capacitar a atuação com a grande variedade de corpos e vivências presentes no território, surgiu a necessidade de capacitar a equipe também em questões relacionadas à comunicação e tecnologia, com foco nas Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs). “Assim como para os usuários, foi percebida a necessidade de intervenção junto à equipe durante a pandemia, pois os atendimentos remotos se mostraram uma necessidade e representam agora uma nova possibilidade de alcance dos beneficiários, devendo ser aperfeiçoada”, explica Leidyanna. 

O que primeiro surgiu como um desafio se tornou um campo a ser explorado para qualificar o trabalho. “Este novo universo das TICs nos proporcionou acesso e possibilidade de mediação de um novo universo. O Laboratório de Inclusão Multimídia não representa apenas um espaço de potencialização da voz dos adolescentes e jovens atendidos, mas também dos colaboradores e desta organização que tenta sempre alcançar com qualidade cada vez mais pessoas”, diz. 

Organização das Voluntárias de Goiás

Outra questão central no processo que a OVG está vivendo é a perspectiva histórica. A longevidade da organização traz desafios de manter uma equipe coesa, na mesma página e conectada com o público. “Mesmo com mais de 70 anos de história, esta organização está em constante mudança tentando se aprimorar. Em meio a tanta tradição, o processo tem nos ensinado a conciliá-la com flexibilidade. Apesar de entender a importância de certas burocracias, alguns critérios e aplicações estão sendo repensados, mas sempre compromissados com a transparência, equidade e qualidade”, diz. 

Para isso, Leidyanna compartilha alguns fatores que foram importantes para manter essa coesão, a partir da experiência em andamento. Um deles é buscar contratar não só profissionais com competência técnica, mas também com valores e visão que estejam sintonizados com os da organização. “As contratações recém realizadas possibilitaram, além da ampliação da força trabalho, a leitura das ações executadas sob novas óticas com diferentes perspectivas, sempre consonantes ao princípio da justiça social e da equidade”, reflete. Para ela, apesar dos desafios, os passos dados até agora mostram que esse caminho é frutífero e tem dado fôlego e ferramentas para continuar na luta pela inclusão da diversidade e integração com o território.

Trabalhando equipe e público

Adriene dos Santos, de 25 anos, chegou na equipe da ONG PASPAS – Profissionais da Área da Saúde Promovendo Ações Sociais para implementar o Plano de Intervenção construído dentro do programa Itaú Social UNICEF. A jovem é uma mulher negra, moradora da comunidade em que a OSC atua e foi convidada a trabalhar com profissionais e parceiros para ajudar a promover mudanças e reflexões coletivas sobre diversidade, identidade e território.

Adriene dos Santos

O foco do processo de desenvolvimento institucional da Paspas é conhecer melhor a realidade em que está inserida hoje e dialogar com as necessidades do território. “A gente trabalha com formação de gênero, sexualidade, raça e etnia, com atenção especial às religiões de matriz africana”, conta. Adriene recorda que nos círculos de diálogo questões de gênero e sexualidade foram sentidas como um dos grandes desafios a serem trabalhados pela organização e pela equipe, que precisava também de um processo formativo. 

Foram criados eixos de formação que abrangem território e identidade; gênero e sexualidade; e raça e etnia. Para trabalhar as temáticas de cada tema, as oficinas de teatro, futsal, capoeira, balé e danças afro, e violão são os meios de chegar no público atendido. Atualmente, são mais de 400 crianças e adolescentes atendidos. O objetivo é fornecer uma qualificação continuada e interseccional.

ONG PASPAS

Para a profissional, um dos principais desafios é promover espaços de troca e aprendizado da pequena equipe com o público atendido. “A gente trabalha a organização como um todo, equipe e usuários. Nosso objetivo é que as pessoas se tornem multiplicadoras desses aprendizados”. Mas outro desafio também foi a questão geracional. “A partir do momento que você chega com um novo olhar, é um choque. Eu tenho 25 anos, cheguei com 24. As pessoas me viam como adolescente universitária, para eles eu era uma pessoa cheia de sonhos”, diz. 

Passado o estranhamento inicial, hoje os resultados estão visíveis. O que era visto como algo distante já começa a ser parte da rotina e prática da equipe. “Estamos no espaço de reflexão”, diz. Essas mudanças dizem respeito não só à formação da equipe sobre os eixos, mas também sobre a gestão e na construção de um plano de monitoramento e avaliação. “Para mim uma das melhores avaliações que tivemos da equipe é o entendimento que a gente vive numa estrutura que não pode estar estagnada, tem que estar em movimento. Nós trabalhamos com pessoas, as coisas não são padronizadas. Precisamos entender que trabalhamos com uma variedade muito grande de pessoas e nos preparamos para saber dar respostas a elas”.

As três experiências, cada uma a seu modo conectado com o contexto em que estão inseridas, têm em comum a abertura para se rever, buscar soluções a partir dos diálogos com equipe, território e públicos. A partir destes exemplos, vemos que o caminho do desenvolvimento institucional auxilia as OSCs a potencializar suas contribuições para a sociedade e para o fortalecimento da democracia.