Da reflexão à prática: caminhos para o protagonismo de crianças e adolescentes

Se existem princípios que são praticamente unânimes entre aqueles/as que se dedicam a pesquisar e refletir sobre a área da educação, um deles é a ideia de que crianças e adolescentes devem ser protagonistas da própria trajetória de aprendizagem.

Essa premissa é fundamental para trabalharmos com o conceito de educação integral e inclusiva. Afinal, desenvolver ações com base na diversidade e nas potencialidades do território, em variadas dimensões, passa pela escuta atenta às pessoas que fazem parte da comunidade. E fazer isso vai muito além de estabelecer momentos pontuais de consulta ou diálogo: é preciso integrar e se abrir, de forma que a participação seja estimulada em todas as etapas das ações e atividades propostas pela organização, do planejamento à avaliação.

No dia a dia, isso significa evitar as saídas que parecem mais fáceis e rápidas, como tomar decisões de cima para baixo ou pressupor que existe um grupo (especialistas, professores/as e adultos/as) que naturalmente sabe o que é melhor e mais interessante para os demais. Não se trata, por outro lado, de se retirar do processo ou deixar de se posicionar: a chave está em dialogar e construir propostas de forma coletiva, que integrem organização e comunidade.

Como os territórios e os grupos de pessoas são diversos, não existe uma receita para desenvolver o protagonismo e a participação de crianças e adolescentes, mas Organizações da Sociedade Civil (OSCs) de diferentes regiões do país têm encontrado caminhos que podem inspirar outras organizações a (re)pensar práticas. 

Também vale lembrar que as pessoas e suas necessidades mudam com o tempo. Portanto, trabalhar com o protagonismo e a participação é estar em constante movimento e entender que ideias que funcionaram bem no passado ou com um determinado grupo podem não ser boas soluções no futuro ou em outros contextos. Se podemos propor uma regra, é a de que a escuta, a atenção e a abertura são e serão sempre necessárias.

Aprendendo a escutar

Em Porto Alegre, uma das ações do Centro de Integração de Redes Sociais e Culturas Locais – Cirandar atende crianças e adolescentes da comunidade Chocolatão. A OSC promove arte, cultura, leitura e literatura, com o gerenciamento de bibliotecas e a oferta de cursos e atividades de formação.

Márcia Cavalcante

Márcia Cavalcante, coordenadora institucional do Cirandar, conta que a OSC criou recentemente um grupo de acompanhamento da biblioteca comunitária que inclui crianças e adolescentes. “As contribuições das crianças são sempre muito indicativas e espontâneas. É muito interessante a capacidade que elas têm de dar respostas diferentes daquelas que prevemos como adultos. Elas trazem, por exemplo, as dificuldades que a comunidade enfrenta, de maneira muito franca. Nesse processo, crianças e adolescentes nos ensinam a escutar.”

Para a OSC, a aprendizagem mútua e a abertura para ouvir os/as mais jovens representam um avanço institucional. “Essas práticas são fruto do amadurecimento da organização, das experiências que vivemos ao longo do tempo e das redes em que fomos nos integrando”, explica Márcia. “Mas é preciso uma escuta ativa, que vá além de simplesmente ouvir. É necessário levar em conta de verdade o que foi dito, para avaliar, repensar modelos, modificar o que for necessário.”

A coordenadora conta que um dos desafios encontrados foi achar o tom ideal para interagir com as crianças nesses momentos. “Precisamos encontrar uma forma de comunicação que não ‘pedagogizasse’ os encontros, um tom de participação divertido e produtivo. No início tivemos um pouco de ansiedade com isso, mas depois descobrimos que o ideal é a simplicidade. Chegamos a um formato de encontro bem leve, de trocas. Fizemos um bolinho, fomos conversando, e as dúvidas e ideias foram aparecendo.”

Às organizações interessadas em se abrir mais para o diálogo com crianças e adolescentes, Márcia sugere partir de uma conversa interna. “É importante que a própria instituição reconheça a importância da escuta e desse protagonismo. Ao iniciar uma nova ação, ela precisa ser de todo mundo, de toda a equipe da organização.” Outra dica é estudar o tema e conhecer outras experiências de protagonismo inspiradoras. “Talvez seja difícil no começo, mas vale se lançar de coração aberto. As crianças têm uma capacidade imensa de nos ensinar.”

A participação no projeto trouxe para minha vida aprendizagem e conhecimento. Através do projeto as crianças aprendem a ler, escrever e saber o que a nossa cultura tem, conhecem sobre livros e escritores. Sinto que o projeto deixa tudo mais organizado para as crianças saberem o que é leitura de verdade.

Ruth, 11 anos – Cirandar

Construindo relações de confiança

Instituto Hoju

No Instituto Hoju – que há 23 anos atua no Morro da Mangueira, no Rio de Janeiro –, os/as adolescentes têm papel cada vez mais central na comunicação institucional. A valorização do protagonismo juvenil, porém, não é uma novidade na organização, voltada à emancipação da população descendente de pessoas escravizadas e dos povos originários do Brasil por meio da valorização da diversidade étnico-cultural em diferentes linguagens. 

Kaká Portilho

Kaká Portilho, presidente do instituto, conta que ela mesma é fruto dessa cultura de integração. “Comecei a participar da organização quando as fundadoras deram os primeiros passos. Eu era adolescente na época e tive, ali, a oportunidade de trabalhar. Elas me colocaram como protagonista, e isso foi muito potente como reconhecimento.”

Para os/as adolescentes, Kaká considera essencial a experiência de assumir responsabilidades e “ter centralidade nas construções”. “Isso faz com que o projeto seja deles e delas, e aí o projeto acontece, independentemente de nós. Temos o protagonismo em mente também por sermos do território e já termos enfrentado muito a situação de terceiros falarem por nós. Então, isso nos permitiu ter outra visão, assumir a possibilidade de não falar por eles e elas.”

Quanto às demandas de crianças e jovens, Kaká conta que o processo é orgânico e muitas vezes imprevisível. “A gente não tem muito como prever o que vem. Por exemplo: recentemente um grupo de jovens pediu para incluirmos atividades de reforço escolar. Dialogamos, redesenhamos a proposta e criamos um acompanhamento educacional, que vai além do reforço escolar nesta ou naquela disciplina. Abordamos os conteúdos em que há mais dificuldade e ao mesmo tempo fazemos um trabalho de médio e longo prazo, olhando também para o caminho vocacional de cada um e cada uma.”

Instituto Hoju: com base na escuta de crianças e adolescentes, a organização criou um programa de acompanhamento educacional. Saiba mais neste post da OSC no Instagram (@institutohoju)

Entre os desafios da abertura para a escuta e o diálogo, Kaká menciona a responsabilidade de acolher com sensibilidade relatos de abuso e sofrimento. “Nessas relações, vão se desenvolvendo laços de confiança e espaços de abertura. Muitas vezes, nessas conversas se revelam traumas, violências. Então, precisamos atuar de maneira a fazer a proteção de crianças e adolescentes e, ao mesmo tempo, preservar sua convivência comunitária.”

O que passa na minha cabeça quando falamos da participação de jovens e crianças? São cursos, as atividades que são oferecidas e os passeios que fizemos. A participação no projeto trouxe para a minha vida conhecimento.

João Miguel, 14 anos – Instituto Hoju

Às OSCs que desejam se abrir mais ao protagonismo juvenil, Kaká orienta a sempre olhar para os/as mais jovens como potencialidades, mas sem esquecer o papel institucional e profissional da OSC. “Ele é fundamental nesse momento de fazer a leitura das vontades e necessidades para transformá-las em atividades e projetos.” 

Outro ponto importante é entender que, ao trabalhar dessa forma, nem sempre as coisas acontecerão de maneira rápida ou dentro de prazos apertados. “Precisamos de mais tempo para planejar, conversar e decidir. As atividades do ano que vem, por exemplo, já estão sendo pensadas por todos e todas nós, em conjunto. Precisamos de tempo para maturar as ideias, sistematizar, organizar, procurar profissionais que poderão estar conosco.” Trabalhar com calma e sem imposições, portanto, é parte do caminho.

Superando o silenciamento

Abenaiya

No município de Simões Filho (BA), a Associação Beneficente Nàná Ìyalóòde Ayé – Abenaiya trabalha desde 1999 na promoção do acesso a lazer, arte, educação, cultura e segurança alimentar de crianças, adolescentes, jovens e adultos/as. “A equipe da OSC, de forma geral, tem um aprendizado centrado em religiões afroameríndias, na Capoeira. O aprendizado em roda e inclusivo é o que fundamenta nossas ações”, conta Raquel Fabeni Ricardo, educadora e coordenadora de Assistência Social da organização.

Raquel Fabeni Ricardo

“Aprendemos a desenvolver um olhar e uma escuta que coloca crianças e adolescentes no centro de todas as ações. É o encantamento, a realização, o desenvolvimento e o engajamento deles e delas que nos importam em primeiro lugar. Para nós, é um aprendizado sempre em processo, pois as próprias crianças e adolescentes nos desafiam e nos impulsionam constantemente a novas aprendizagens.”

Raquel conta que a OSC promove conversas, dinâmicas, brincadeiras e atividades artísticas “para que as crianças possam se expressar a partir do universo da infância, sem que sejam exigidas a se expressarem como pessoas adultas”. Mas essa participação ocorre também nos momentos mais “sérios”, como reuniões de planejamento, elaboração e avaliação das atividades. “São lugares em que as crianças nos surpreendem com suas contribuições e com seu entendimento dos processos.”

Um ponto importante é acolher a diversidade e entender que nem todos/as os/as jovens e crianças participarão da mesma maneira. “Algumas crianças e adolescentes vivenciam um silenciamento dos seus desejos e ideias de forma mais intensa, enquanto outros já estão mais habituados e habituadas a se expressar”, explica a educadora. “Trazer esse público para esse lugar de fala é contribuir para que eles e elas se desenvolvam de forma mais saudável, para que aprendam a nomear seus sentimentos e se autorizem a expressar ideias e opiniões.”

Raquel destaca que crianças e jovens que costumam ser mais silenciados/as se sentem motivados/as a participar quando veem colegas se expressando. “Nosso desafio é incluir e engajar mais crianças e adolescentes nesse processo. Nós ganhamos muito, pois eles e elas avaliam as dinâmicas de forma assertiva e sincera. Têm a capacidade de inovar nossos modos de fazer.  E  monitoram e nos cobram também. As crianças pequenininhas, então, nunca se esquecem de um acordo ou combinado.” Por isso, se houver alguma alteração no que foi planejado de forma coletiva, é fundamental comunicar, explicar e negociar essa mudança.

Fortalecendo o protagonismo

O Centro de Documentação e Comunicação Popular – Cecop, fundado em 1991, atua em diferentes municípios do Rio Grande do Norte. A organização trabalha com programas de formação em cultura, educação e comunicação popular junto a crianças e adolescentes, muitas vezes em parceria com escolas e outras instituições.

Jovens estudantes no projeto da RPTV – Cecop

Uma das ações desenvolvidas pela OSC é o Projeto da RPTV – Rede Potiguar de Televisão Educativa e Cultural, que mantém um canal educativo de TV a cabo na cidade de Currais Novos (RN), com produções de alunos e alunas de escolas públicas. Segundo Raimundo Melo e Talita Barbosa, que trabalham com educação e coordenam o Cecop, a iniciativa é desenvolvida com diálogo e participação de crianças e adolescentes em todas as etapas do processo de produção dos conteúdos: planejamento das ações, capacitações, produção, veiculação e avaliação do que foi feito.

Minha experiência como repórter me mostrou coisas novas, pessoas e lugares diferentes. A querer ir sempre mais além e saber que consigo com muito esforço.

Álex, estudante do Ensino Médio – Projeto RPTV

Raimundo Melo

Como desdobramento desse projeto, surgiu o Prêmio Carcará em 2021, que estimulou a formação de equipes de jovens para produzir conteúdo audiovisual com celulares. “A concepção e o desenvolvimento do prêmio surgiram de conversas e trocas de ideias com grupos de jovens e da própria avaliação do trabalho realizado pelo Cecop”, contam Talita e Raimundo. “O projeto está fortalecendo uma rede de novos realizadores e novas realizadoras audiovisuais que nasceu com a realização do prêmio.” E no funcionamento da rede estão os/as 60 jovens selecionados/as (20 equipes de três alunos/as), que participam de todas as etapas do trabalho: planejamento, execução e avaliação das ações desenvolvidas.

Eu já tinha como hobby o audiovisual. Eu gostava de editar vídeos, fazer filmagens e eu quero levar isso como profissão. É um sonho que eu consiga arranjar um emprego nessa área.

Raquel, aluna da equipe que conquistou o 2º lugar no Prêmio Carcará

Talita Barbosa

Segundo Talita e Raimundo, essas experiências revelaram o quanto estudantes das escolas públicas precisam de espaço para mostrar suas habilidades, práticas culturais, formas de enxergar o mundo e sua relação com o conhecimento. Entre os desafios encontrados, apontam a ausência de programas e políticas públicas que incentivem essas práticas, a resistência que ainda persiste em alguns ambientes escolares e a falta de apoio para sistematizar e divulgar boas experiências. Afinal, seria fundamental documentar, relatar e analisar as metodologias, os resultados e os impactos dessas iniciativas.

A dupla de coordenação do Cecop também ressalta a importância de mobilizar docentes, famílias e responsáveis para a relevância dessas práticas, fortalecer conexões e parcerias com a comunidade e, por fim, dialogar com o poder público. “Não é possível pensar em processos, projetos e ações que impactem positivamente a vida das pessoas, que gerem melhorias na educação pública, se eles não forem realizados de forma democrática.”

Trabalhar pela educação integral, portanto, requer diálogo e trocas constantes – um esforço que, para dar bons resultados, precisa de múltiplas vozes. Já parou para pensar de que forma a sua organização abre espaço para a escuta e a participação de crianças e adolescentes? Conversar com sua equipe e com a comunidade para aprimorar ações nesse sentido pode ser o primeiro passo em direção a práticas mais inclusivas e significativas.

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