Compartilhamento de olhares e aprendizagens marca nossos primeiros passos

Quais foram os principais desafios e conquistas dos primeiros meses do Programa Itaú Social UNICEF? Confira

Olhar para dentro. Olhar para fora. Propor ações transformadoras que repercutem na realidade local. Esses são os passos do Percurso proposto pelo Programa Itaú Social UNICEF. Nos seus primeiros meses de vida, a iniciativa tem mobilizado organizações da sociedade civil das cinco regiões do país a revisitar sua origem e missão, e refletir sobre sua atuação com crianças e adolescentes. 

Foram mais de 1.500 OSCs que se inscreveram nesta 1a edição em busca de refletir sobre suas práticas, conhecer ainda mais a localidade em que estão inseridas, ampliar parcerias com lideranças comunitárias, coletivos e outras instituições do entorno e assim planejar caminhos para fortalecer institucionalmente a organização  tendo a educação integral e inclusiva como diretriz.

Nesse caminho, a colaboração e articulação dentro das e entre as organizações participantes do percurso formativo são uma das metas estabelecidas na concepção do Programa. Para Milena Duarte, coordenadora de Fomento do Itaú Social:

Milena Duarte, coordenadora de Fomento do Itaú Social
Milena Duarte, coordenadora de Fomento do Itaú Social

“A colaboração é um dos princípios estruturantes do Programa, convidando as organizações a se abrirem a um processo de escuta e reflexão que reúna seus diferentes colaboradores, as crianças e adolescentes, seus familiares e suas comunidades. Fazer este movimento nos parece fundamental para permitir que as OSCs revisitem os sentidos do trabalho que realizam e assim (re)construam uma percepção de si em diálogo direto com os múltiplos indivíduos que a constituem diariamente.

Nós sabíamos que o contexto da pandemia seria bem desafiador para todas as organizações, ainda mais àquelas localizadas em territórios com pouco acesso a tecnologias, dificultando e até impossibilitando a comunicação em alguns casos. Contudo, as respostas têm sido muito ricas e variadas, apontando como as organizações são potentes e podem construir soluções para muitos dos desafios sociais que temos no país. Para algumas organizações, sabemos também que convidar a um diálogo mais participativo é uma construção ainda inicial e que a participação exige investimento contínuo, mas o compartilhamento das percepções por parte delas nos permite identificar que o Programa tem contribuído para alargar essa compreensão e sentido da construção coletiva.

No campo da interação entre a OSCs, sabemos que precisamos avançar, descobrir novas metodologias e ferramentas que potencializem as trocas e pretendemos aprofundar isto com as 40 OSCs fomentadas e pensar como a experiência delas na implementação dos planos de intervenção pode ser compartilhada e inspirar as OSCs que não seguirão conosco nesta etapa.”

Milena Duarte

Iniciado em agosto, o percurso formativo propôs reflexões e práticas com o objetivo de contribuir para que as OSCs promovam ações voltadas à equidade e à inclusão junto ao público atendido, premissas fundamentais no Programa.


Aprendizagem em rede nos tempos do Covid-19

Fruto das experiências e conquistas do Prêmio Itaú-UNICEF, que por 25 anos promoveu e deu visibilidade a iniciativas de organizações voltadas ao desenvolvimento pleno de crianças e adolescentes, o Programa nasceu em um contexto de grandes desafios e aprendizagens. Segundo a coordenadora do Programa pelo CENPEC, Letícia Moreira:

Letícia M. da Silva
Letícia Moreira

“O principal desafio foi lançar um programa elaborado para que a participação das OSCs fosse coletiva e colaborativa durante uma pandemia e, consequentemente, com a necessidade de isolamento social. Além da impossibilidade dos encontros, as desigualdades se evidenciaram no sentido de que muitas localidades se viram em situações ainda mais precárias em relação a emprego, tecnologia (sinal de internet, equipamentos insuficientes) e também em relação à alimentação e higiene.” 

 Mariana Cetra

Mariana Cetra, técnica do Programa, complementa:

“Muitas OSCs atuaram na linha de frente para realizar ações emergenciais nos territórios e por isso enfrentaram muitos desafios para seguir no percurso formativo, não apenas em relação às comunidades atendidas, mas também para manter seu funcionamento diante das reduções orçamentárias vivenciadas, entre outros fatores.”

Mariana Cetra

Construção do conhecimento: percepções de mediadores

Ao longo do percurso, as OSCs tiveram a companhia de mediadores. A composição do grupo, integrado por 43 educadoras e educadores de regiões, origens étnico-culturais, idades e experiências diversas, expressa a importância da diversidade no Programa.

A seguir, trazemos as percepções e reflexões de dois mediadores sobre as aprendizagens construídas ao longo desses três meses de percurso formativo: Giselle Christina e João Gabriel do Nascimento Nganga.

Giselle Christina
Giselle Christina

Consultora em diversidade e inclusão (D&I corporativa), Giselle é mestranda em Humanidades, Direitos e Outras Legitimidades pela Universidade de São Paulo (USP) e bacharel em Sociologia e Política pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP). Com vasta experiência em pesquisas qualitativas, quantitativas, mercadológicas e desenvolvimento de projetos de inteligência de mercado e consumer insights, realizou projetos para instituições como Afrobras, Faculdade Zumbi dos Palmares, Feira Preta e EmpregueAfro (censo da diversidade Médicos Sem Fronteiras).

João Gabriel Nganga
João Gabriel Nganga

Educador, professor de História e produtor de projetos socioculturais, com ênfase em cultura afro-brasileira, João Gabriel é consultor em educação, diversidade étnico-racial e inclusão. Doutor em História pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU), pesquisa educação para/das relações étnico-raciais pelo Núcleo de Estudos Afro-brasileiros (NEAB/UFU). É também produtor cultural, atuando na elaboração, produção e organização de projetos socioculturais, com ênfase em cultura afro-brasileira. Tem experiência em formação de professoras/es e gestores/as públicos/as para a implementação da lei 10.639/03.Em 2015 recebeu o prêmio (Honra ao Mérito) da Comissão da Igualdade Racial da OAB-MG em agradecimento as contribuições para/com o Movimento Negro de Uberlândia.

Confira a entrevista.


Programa: Como as temáticas e os diferentes olhares propostos em cada fase do percurso foram recebidos e trabalhados pelas OSCs com que você atuou como mediador/a?

Giselle: Todas as fases do percurso foram recebidas com bastante surpresa e entusiasmo. Os temas abordados por si só já são bastante complexos e, ainda, norteados por uma perspectiva diversa, causaram um reposicionamento de ideias fora da zona de conforto.

Ainda abordando a recepção das fases do percurso, posso dizer que a interseccionalidade das diversidades foi outro ponto que deslocou bastante as OSCs do seu “lugar de ação”, fazendo com que estas passassem a pensar de forma, para muitas inédita, de amparar as pessoas assistidas e as que de alguma forma são impactadas pelas ações da organização.

Ao olhar para fora, foi possível perceber que o impacto indireto é tão potente para o território quanto o impacto direto causado aos assistidos, e de que forma a devolutiva dessa ação promove o crescimento da própria organização. Acredito que venha daí todo o entusiasmo em romper com um status quo e promover uma assistência voltada, de fato, às necessidades do território, respeitando suas particularidades e diversidades que, interseccionadas, dão vida a uma comunidade onde a  heterogeneidade é complementar.

João Gabriel: De modo geral, as OSCs receberam muito bem as propostas de atividades de cada estação. No início, algumas se assustaram com o volume de atividades, bem como com os eixos propostos pelo Programa, visto que, para algumas organizações, parar para pensar e repensar suas práticas nas áreas do desenvolvimento integral de crianças e adolescentes, desenvolvimento institucional, articulação no território e ter um olhar mais atento ao campo da diversidade era algo novo. Com o passar do tempo, com as rodas de conversa e com os atendimentos individuais realizados, as OSCs foram relatando o quão proveitoso está/estava sendo o percurso formativo para a reflexão sobre suas iniciativas e atividades enquanto instituição, principalmente no que se refere aos eixos centrais do Programa.

Programa: Como a interação em grupo colaborou para o debate sobre os temas e questões propostos?

Giselle: O suporte em rede que se formou durante o percurso formativo deu subsídio à elaboração de novos olhares em relação à assistência prestada ao território. Questões comuns a várias OSCs vieram à tona de maneira recorrente, revelando um misto de sentimentos como esperança e frustrações.

Para as pessoas que estão à frente desses projetos, a cobrança é realmente muito intensa, principalmente no contexto epidêmico em que estas se encontram. Poder dividir com seus pares anseios e questões sobre os temas que lhes atravessam foi fundamental para a construção de atividades robustas, que realmente vão deixar um legado para além deste Programa. As redes de apoio que se formaram organicamente darão a essas organizações um alicerce sólido onde o construir será mais efetivo e menos dispendioso.

João Gabriel: As interações entre as OSCs são realizadas por meio das rodas de conversas e do grupo de WhatsApp. Em todas as rodas há muito aprendizado, pois as OSCs nos possibilita apreender um pouco mais de suas realidades, anseios e desafios, seja dentro do percurso formativo, seja no cotidiano delas. Esse compartilhamento de dúvidas, respostas e sonhos contribuiu para uma melhor compreensão dos temas propostos pelo Programa. 

A diversidade talvez seja o tema que mais gerou debates, uma vez que as OSCs sempre foram convidadas a pensar e repensar o que entendem por diversidade, bem como em quais espaços-tempos ela está presente no cotidiano da organização.

Programa: Que mudanças você percebeu nas OSCs participantes ao longo do percurso?

Giselle: O amadurecimento das OSCs é nítido. Mesmo as que não tinham trato algum com os recursos tecnológicos hoje conseguem navegar minimamente entre as ferramentas necessárias para a confecção das atividades. Além disso, a interação com outras organizações corrobora com a expansão de horizonte, mostrando novas possibilidades de trabalho e serviço social.

Não podemos desconsiderar também as mudanças atitudinais dessas organizações. Mesmo nesse curto período, ao pensar de forma diversa e interseccionalizada, as OSCs passaram a agir de forma a estar disponíveis para oferecer o que é necessário ao território e não somente oferecer algo que elas acreditam que possa fazer bem àquela comunidade. Essa mudança é, na minha opinião, a mais relevante, já que muitas vezes nós, na ânsia de “ajudar”, acabamos por “regar demais uma planta que na verdade precisa mesmo é de adubo”.

João Gabriel: No decorrer do percurso formativo, percebi uma mudança de postura em algumas instituições no que se refere aos integrantes da gestão da OSC com quem eu me relacionava por meio das rodas de conversas, atendimentos individuais, tira-dúvidas pelo WhatsApp, troca de e-mails. Percebi uma escuta ativa de seus educadores e outros colaboradores, um olhar mais atento para o “querer” das crianças e adolescentes, bem como uma atenção maior para o que as famílias têm a falar.

Ainda nessa direção, algo que percebi em quase todas as OSCs com quem mantenho contato é uma vontade de compreender melhor qual é o território em que estão inseridas a partir da perspectiva não apenas da instituição, mas também das crianças/adolescentes, famílias e parceiros. Outra mudança perceptível diz respeito ao tema diversidade. Algumas OSCs chegaram à conclusão de que é necessário falar mais sobre este tema, principalmente no que tange aos marcadores de raça/etnia, gênero e sexualidade.


Alinhavando o plano de intervenção

Com a finalização das duas primeiras estações, no dia 18/12, o foco do percurso se volta a apoiar as OSCs na elaboração dos planos de intervenção. Nesse momento, as organizações são orientadas a sistematizar as reflexões e aprendizagens construídas nas estações anteriores a fim de construir propostas dialógicas, coerentes com o que foi revelado ao longo do percurso  e viáveis de realizar no período de 18 meses. 

“Estamos recebendo muitos retornos das OSCs e é gratificante escutar os relatos e reflexões feitas por elas sobre a participação nesse percurso formativo. Os convites feitos pelo Programa de as OSCs olharem para dentro, para suas formas de atuação e também para o território em que estão localizadas; promovendo a escuta das pessoas envolvidas direta ou indiretamente nas OSCs, olhando para a diversidade, tem promovido um movimento muito bonito”, celebra Mariana Cetra, técnica do Programa.

Na elaboração do Plano de Intervenção, assim como tem sido estimulado ao longo do  percurso, o envolvimento das equipes gestora e pedagógica da organização é fundamental. Para que possam seguir na Estação 3, as organizações precisam enviar todas as atividades das Estações 1 e 2 até sexta-feira, dia 18/12

Atenção às datas:

  • Fechamento das Estações 1 e 2: 18/12/20
  • Fechamento da Estação 3 e entrega do plano de intervenção: 29/01/21

Observação: é necessário entregar todas as atividades das Estações 1 e 2 até 18/12 para seguir com a elaboração do plano de intervenção.


Avaliação e seleção para a assessoria técnica e o fomento financeiro 

Distribuição de vagas por região
Distribuição de vagas por região

Com base nos planos de intervenção enviados, serão selecionadas 40 organizações que irão receber assessoria técnica por 18 meses e até R$100 mil para implementar um plano de intervenção no seu território de atuação.

A seleção levará em conta critérios técnicos e a vulnerabilidade socioeconômica e educacional dos municípios onde as OSCs atuam. Assim, 80% das vagas serão oferecidas prioritariamente às regiões Centro-Oeste, Norte e Nordeste, em que tradicionalmente há menor incidência de apoio, conforme mapa ao lado. As organizações devem enviar suas propostas até 29/01/2021 para participarem do processo de avaliação e seleção, que acontecerá entre fevereiro e março do próximo ano. 

Como afirmou a Superintendente do Itaú Social, Angela Dannemann, por ocasião do lançamento do Programa, em julho deste ano.

“O Programa tem o propósito de incentivar as organizações da sociedade civil a ampliarem seu protagonismo e compromisso com seus territórios de atuação. No contexto da pandemia da Covid-19, ficou ainda mais visível o papel fundamental dessas instituições para a garantia dos direitos de crianças e adolescentes. Ações mais contínuas e voltadas para resultados que possam ser alcançados e observados irão assegurar sustentabilidade no longo prazo, e permitir que elas consigam manter e aprimorar suas atividades em prol da educação integral em todo o país.”

Angela Dannemann

A todas as organizações que se dedicaram à educação integral e inclusiva de crianças e adolescentes neste ano repleto de desafios e aprendizagens:

“Gostaríamos de deixar registrado nosso agradecimento a todas as OSCs que toparam mergulhar junto com a gente nessa proposta de escuta, diálogo, reflexão, ação, trabalho coletivo e colaborativo mesmo diante de todos os desafios impostos pela pandemia de Covid-19. Seguimos juntas e juntos nesse processo bonito e forte que é a construção em rede. Um ótimo final de ano a todas as pessoas envolvidas nesta jornada. Desejamos que permaneçam com saúde e com muita energia para finalizar os planos de intervenção até o dia 29/01/2021. Um abraço bem apertado em cada uma e cada um!”

Equipe do Programa Itaú Social UNICEF
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