Como estimular a participação política e o pensamento crítico entre crianças e adolescentes?

O senso comum tende a associar política apenas com período eleitoral, atuação partidária e distribuição de verbas e cargos públicos — aspectos, claro, que não deixam de ser importantes. Entretanto, a política é um campo que atravessa toda a vida social e que pode se apresentar também como algo muito próximo e palpável. Ela está, por exemplo, nas trocas e decisões em comunidade, na participação em organizações do território, na forma como agimos e interagimos nas redes sociais, na atuação em diferentes tipos de coletivos.

Política tem tudo a ver com a forma como organizamos nossa vida em sociedade, com os projetos que criamos para o futuro e os caminhos que estamos trilhando em direção (ou não) a esses objetivos. Tem a ver, também, com pensamento crítico, já que a qualidade das nossas decisões, sejam elas individuais ou coletivas, depende de uma boa leitura do mundo em que vivemos e das informações a que temos acesso.

Como inspirar crianças e adolescentes a pensar de forma crítica e entender que a política é um lugar que eles e elas também podem e devem ocupar? Conversamos com Organizações da Sociedade Civil (OSCs) que realizam ações nesse sentido e elas compartilharam conosco suas experiências. Confira a seguir.

Espaços políticos, expressão e escuta

No estado do Tocantins, a Ação Social Arquidiocesana de Palmas (ASAP) promove visitas de crianças e adolescentes a espaços como a Assembleia Legislativa e o Ministério Público. Nesses locais, os grupos são recebidos por representantes que mostram as instalações e falam sobre o trabalho realizado ali. Depois, em rodas de debate, os(as) jovens discutem suas impressões e relatam a experiência para colegas que ainda não tenham visitado os mesmos espaços.

“A Assembleia Legislativa e a Câmara de Vereadores, por exemplo, são lugares de diálogo em que o povo tem de se fazer presente”, destaca Amilson Rodrigues, presidente da ASAP. “As políticas públicas atingem toda a sociedade. Precisamos trabalhar para empoderar os(as) mais jovens, de forma que eles e elas possam atuar sobre a realidade junto aos poderes constituídos, para que as críticas sejam de fato construtivas e apontem para caminhos viáveis.”

A OSC foi fundada em 1999 e suas ações atuais são desdobramentos de sua primeira linha de atuação, de apoio a adolescentes grávidas. “Para nós, toda ação é uma ação política e toda ação política promove uma transformação social quando é bem utilizada”, aponta Amilson. Hoje, a ASAP realiza também encontros formativos sobre Direitos Humanos e outras atividades em que a escuta de crianças e adolescentes assume papel central. Uma delas é um grupo de teatro, organizado em parceria com a Universidade Federal do Tocantins (UFT). Amilson explica que os(as) adolescentes enxergam nas artes cênicas uma forma de se expressar sobre vivências e elaborar traumas e violências. A partir das práticas do Teatro do Oprimido, é possível trazer à tona empatia, autonomia e criticidade.

ASAP: visitas a espaços públicos, encontros formativos e arte
(foto: asapto.org.br)

Pensar, do individual ao coletivo

Pensar Faz Bem é o nome de um programa de oficinas realizado pela Associação Bem Faz Bem (ABFB), que atua em Campos dos Goytacazes (RJ). Fundada em 2013, a ABFB oferece diversas atividades multidisciplinares em contraturno escolar para crianças e adolescentes. 

Voltadas a estudantes matriculados(as) a partir do sexto ano do Ensino Fundamental II, as oficinas se dividem por faixa etária e são um convite ao pensar e à reflexão sobre situações do cotidiano. 

Aline Monteiro e Francielli Rangel, professoras das oficinas, contam que os temas partem de interesses dos(as) alunos(as). “Já falamos sobre intolerância racial, religiosa, social. Também conversamos sobre o uso de redes sociais”, relata Aline. Francielli complementa: “no momento, estamos falando sobre saúde mental. É um tema que despertou muito a atenção”. 

“Com o tempo, as crianças e os adolescentes que participam vão ganhando confiança para compartilhar vivências e histórias em relação aos assuntos levantados”, conta Aline. A partir de um relato envolvendo bullying, por exemplo, é possível conversar sobre respeito, tolerância e diversidade — e sobre como nossas vivências e nossos afetos não são apenas individuais, mas dialogam com questões coletivas.

Outro aspecto importante, aponta a assessora técnica Caroline Rangel, é viabilizar o acesso de crianças e adolescentes (e também de seus grupos familiares) a diversas culturas, de forma a combater preconceitos. “A oficina já partiu de músicas do Emicida, por exemplo, para abordar o problema do racismo. Em nossa biblioteca, também temos um acervo bem vasto de obras antirracistas e sobre povos originários.”

O ponto fundamental, afirma o presidente da Associação, Erivelton Almeida, é abordar os temas propostos com respeito, abertura e um olhar mais crítico. “Quando falamos em política, logo pensamos em política partidária, mas todos esses assuntos e atividades são um meio para a educação integral e fazem parte também de uma formação política.”

Associação Bem Faz Bem: oficinas em contraturno para estimular o pensar e a criticidade
(foto: arquivo ABFB)

Você já parou para pensar de que maneira as ações e atividades da sua organização dialogam com temas relacionados à participação política e ao pensamento crítico? E como é possível aprimorá-las? 

São inúmeros os assuntos que conversam com essas temáticas: desigualdades sociais, qualidade dos serviços públicos, discriminação, informação e desinformação, vida digital, o que é política (e “onde” ela é feita), o que fazem os representantes eleitos (vereadores, deputados etc.). Lembrando que partir dos interesses das crianças e dos(as) adolescentes — de forma que eles(as) sejam protagonistas e o debate se construa coletivamente — é muito importante, sempre.

Dicas de consulta e leitura

Quer se aprofundar no tema? Aqui estão algumas sugestões de leitura para inspirar atividades e debates sobre participação política e pensamento crítico na sua organização:

Por que falar de política na escola?
Apesar de ter como enfoque o espaço escolar, essa reportagem do Portal do Cenpec traz reflexões e sugestões que podem ser úteis também às OSCs que trabalham com crianças e adolescentes.

Muito mais que fake news – Um guia prático para enfrentar a desinformação
E-book produzido pela BemTV – Educação e Comunicação, em parceria com o UNICEF, para apoiar adolescentes e jovens no enfrentamento da desinformação e seus desdobramentos. 

Especial 30 anos do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA)
Conjunto de materiais produzidos pelo Cenpec sobre mobilização, direitos, participação e desenvolvimento de crianças e adolescentes, em consonância com os princípios do ECA.

Guia de Participação Cidadã de Adolescentes
Publicação que apresenta a estratégia proposta pelo UNICEF para garantir a mobilização de adolescentes de forma dinâmica, envolvente e responsável.