Cartografias afetivas: mapas em movimento

Um dos grandes objetivos do Programa Itaú Social UNICEF é incentivar as organizações da sociedade civil a ampliarem seu protagonismo e diálogo com seus territórios de atuação, por meio de ações para a garantia dos direitos de crianças e adolescentes. A educação integral e inclusiva está intimamente relacionada ao envolvimento dos múltiplos atores que compõem o território como um todo, oferecendo diferentes oportunidades de aprendizagem e potencial educativo. 

Nesse sentido, uma das dinâmicas adotadas em nosso percurso formativo são os mapas afetivos, uma forma de representação espacial e memória com base em percepções de pessoas, práticas culturais e coletividades envolvidas nos territórios como protagonistas e mediadores de suas realidades. Como resultado, esse trabalho pode contribuir para uma educação que valorize a diversidade e entenda o espaço público como possibilidades de aprendizagem e construção democrática.

Para compreender mais sobre esse tema, conversamos com a pesquisadora Ana Paula do Val. Desde 2004, Ana Paula trabalha no campo cultural com mapeamentos socioculturais, elaboração de políticas públicas, pesquisa, produção de conteúdos e docência em políticas culturais, gestão, mediação e produção cultural para diversas instituições culturais, entre elas Secretaria Municipal Cultura de São Paulo, Secretaria do Estado da Cultura, Ministério da Cultura, SESC-SP e outros. 

Nessa entrevista exclusiva ao Programa Itaú Social UNICEF, Ana Paula explica a definição de mapas afetivos, que se contrapõem aos referenciais geográficos oficializados e hegemônicos e despertam uma consciência crítica sobre os espaços em que estamos inseridos, o que é fundamental para a construção de redes por cidades mais igualitárias. 


Entrevista com Ana Paula do Val 

Como surgiu o conceito de mapa afetivo? 

Para falarmos sobre o conceito de mapa afetivo precisamos refletir: o que é um mapa? E uma cartografia? Para Harley (2001), um mapa pode ser definido como “uma construção social do mundo”, que se circunscreve entre o verdadeiro e o falso para narrá-lo, tanto nas relações de poder como em suas práticas culturais. Já a cartografia, diferentemente do mapa, é, a “… representação de um todo estático – é um desenho que se acompanha e se faz ao mesmo tempo que os movimentos de transformação da paisagem…” (ROLNIK, 1989). Nesse sentido, para que uma cartografia possa ser entendida como um movimento constante, antagônica aos mapas da dominação, faz-se necessário, primeiro, pensar a finalidade do mapa, o seu domínio (proponente) e o(s) cartógrafo(s) envolvidos na elaboração, tradução e codificação das informações em registros cartográficos. O que desejamos visualizar? A partir de qual lupa? 

O mapa ou a cartografia, como produção visual do espaço, permite a conexão com outros espaços do mundo, localizando-nos e posicionando-nos relativamente a eles, ou seja, colocando-nos em rede. Mas o que eles podem dizer de nós? Acaso não trazemos em nós o lugar que nos constitui como somos? De fato, mas só́ percebemos isso plenamente quando nos localizamos no mapa – ou seja, quando percebemos nosso lugar em relação aos outros lugares. Daí os mapas das cidades e dos países se constituírem em dispositivos de governo e, como tais, serem representações visuais que regulam o modo como vemos e significamos o mundo. 

Portanto, o que se vê em um mapa não corresponde efetivamente ao que as pessoas de fato procuram ou ao que querem realizar, não há uma relação imediata com a realidade. Cabe aos agentes envolvidos realizarem as mediações socioculturais necessárias. O grande desafio de um mapa, conforme nos aponta Latour, é o de como articular os diferentes zooms que nos dão uma visão mais ou menos distante da realidade ou do espaço que mapeamos com as diferentes dinâmicas empreendidas pelos agentes locais, sem que a totalidade e as partes se sobreponham. 

O conceito de mapa afetivo se constrói na minha pesquisa e vivência por meio de processos de mediação sociocultural, mapeamentos participativos e de engajamento de agentes cartógrafos com suas relações de pertença com os espaços. Gerando assim, possibilidades de ler o território como produto de múltiplas temporalidades, percepções e apropriações do espaço, que desencadeiam memórias e discursividades – de sentidos atribuídos e construídos, todos antagônicos, convergentes, parasitas, consensuais e conflitantes –, de modo a refletirem a sua dimensão simbólica do que é intangível num espaço físico constituído como um campo de disputas agenciado por redes de dimensões espaciais e culturais (SILVA, 2008, p. 2). 

Constant Nieuwenhuys, Nova Babilônia, 1969, Colagem. Internacional Situacionista.
Constant Nieuwenhuys, Nova Babilônia, 1969, Colagem. Internacional Situacionista.

Assim, um dos dispositivos para a construção de mapas afetivos é a ideia de “derivas” (JACQUES, 2003). O conceito de deriva foi desenvolvido pelo movimento Internacional Situacionista nos anos 1950, cuja tônica era a construção de situações que provocassem e permitissem “o jogo livre das paixões”, utilizando a cidade como pano de fundo, entendendo o espaço urbano como campo de ação e local passível de realização de novas formas de intervenção e transformação do cotidiano (SILVA, 2008, p. 3). Para que tais intervenções radicais no espaço urbano causassem mudanças, propunham as derivas como práticas de apropriação do espaço, buscando transcender suas lógicas meramente programáticas, funcionais e explorando o espaço e suas possibilidades por meio de experiências capazes de revelar a cidade. Para Lefebvre, um sujeito poderia criar situações novas no espaço ligando partes da cidade que eram espacialmente fragmentadas. 

O Movimento Situacionista foi formado por artistas, ativistas e pensadores; entre eles, Guy Debord, Henri Lefebvre, Constant Nieuwenhuys, Raoul Vaneigen e outros.

A partir dessas referências concebi a ideia de mapa afetivo buscando dialogar com os processos criativos que pudessem ser estimulados também por percepções sensoriais: visão, paladar, olfato, audição e propriocepção ao serem exploradas nestas imersões, dando assim, outros elementos que permitam vivenciar o espaço nos seus diversos sentidos. Qual o cheiro da minha rua? Gosto daquela praça? O barulho daquele caminho? Para representar e problematizar elementos presentes físicos e intangíveis das paisagens. 

Este processo resulta em um registro cognitivo de percepções sensoriais conscientes e inconscientes do espaço urbano, a partir de um corpus subjetivo e objetivo, expressando uma cartografia viva que registra os movimentos das diversas práticas, agentes que coabitam estes espaços e vivem suas identidades, celebram seus modos de vida, registram as suas memórias, entre outros aspectos.


O que diferencia os mapas afetivos dos demais registros cartográficos?

Temos muitas experiências desenvolvidas de mapas, a partir de diversas clivagens, passando por questões sobre seu papel político e ideológico, quais dispositivos podem ser deflagrados tanto em suas capacidades de controle e vigilância pelo exercício de poder. Mas também quanto às suas capacidades de revelar resistências, explicitar disputas e conflitos territoriais, culturais, ambientais, étnicos, raciais, abusos de poderes, entre outras possibilidades. 

Caderno Sesc_Videobrasil 09: Geografias em movimento
Caderno Sesc_Videobrasil 09: Geografias em movimento

Dessa maneira, as cartografias sociais, as contra-cartografias, as novas cartografias sociais, os mapas afetivos e os mapas de artistas que se desenvolvem a partir das percepções de agentes, práticas culturais e coletividades envolvidas nos territórios como protagonistas e mediadores de suas realidades têm dado diversas contribuições críticas e metodológicas para a compreensão destas problemáticas. 

Como aponta Santos (2012), as teorias pós-coloniais, latino-americanas, como na “teoria do giro decolonial” (Mignolo; Lander; Quijano), africanas (Fanon, Césaire, Diop), asiáticas (Said, Bhabha, Spivak), os debates do próprio campo cartográfico (Peters; Harley), europeus (Foucault, Derrida; Deleuze; Guattari; Negri, Santos; Lacoste), trabalham a ideia de cartografia como instrumento de combate as hegemonias em diferentes escalas e recebem a influência destes debates teóricos e epistemológicos de diferentes campos do saber científico e sobre a relação entre representações e poder. (SANTOS, 2012). 

No Caderno Cartografias Afetivas, do Selo Sesc, do qual você é uma das colaboradoras, trata-se de possibilidades diversas com a cartografia de memórias, territórios em trânsito e multiterritorialidades, que levam em conta outras formas de atuação e pertencimento no espaço geográfico: migrações, refúgios, ocupações etc.

Como os mapas afetivos dialogam com as diferentes linguagens presentes nesse trabalho?

Caderno Sesc_Videobrasil 09: Geografias em movimento
Caderno Sesc_Videobrasil 09: Geografias em movimento

Mapas metodológicos, mapas de referências, mapas ideológicos, mapas afetivos… Além de tantas camadas de mapas, existe uma busca comum por decodificar outros sentidos ao mundo, ou melhor, outras formas de ver os mapas, que mentem, o tempo todo. No caso dos refugiados, periféricos, retirantes, desapossados, ribeirinhos, quilombolas, sem-terra, povos indígenas que têm suas cartografias dominadas pela violência física e simbólica provocada pelo poder econômico. Por consequência, desapossa milhões de pessoas do direito à cidade ou ao campo em todo o planeta, sendo assim, simulacros construídos por um imaginário perverso. Estigmatizado pela mídia como territórios de precariedades físicas e desprovidos de sentidos, ou seja, destituídos de afetos, tecidos amorfos, sem vida. Reprimidos pelo estado-capital, apagados das agendas de governos, violados em todos os seus direitos. Corpos-territórios resilientes.

Negar o dominante significa construir um outro campo de percepções, cuja única saída é perseguir outras narrativas para aquilo que é afeto ao território e se manifesta como atlas de subjetividades. Aí entra o exercício do cartógrafo já citado em seu ofício em amplos aspectos, um destes é o quanto ele pode ser autor-colaborador de sua experiência com o outro. Isso só pode ser mensurável à medida que entra em contato com o outro e se deixa afetar.

Isso nos desloca a refletir sobre estes movimentos nômades em duplos sentidos de afetações, a crescente sensação entre indignação e enternecimento pelo que as subjetividades podem narrar sobre estes mundos. Territorialidades diversas que foram se acumulando em processos de trocas de percepções sobre a vida, o cotidiano, a dor, a violência, o preconceito. O amor, os sonhos, a resistência e a memória também fazem parte destes multiterritórios de sentidos, que se lançam no mergulho de captar forças.

Pensando na composição de trabalhos que evocam a cartografia e os deslocamentos como pontos de diálogo, acredito que mapas afetivos dialogam com essas outras linguagens como um processo de mediação sociocultural, que envolve processos criativos que ativam as percepções artísticas e culturais e promovem subjetivação que evoca contextos, narrativas e identidades a se manifestarem no plano cartográfico como suporte.


O trabalho com esses diferentes olhares sobre o mesmo território pode promover um deslocamento/transformação dos conceitos de centro e periferia? Se sim, de que maneira?

E como os mapas afetivos ajudam a conhecer os territórios? De que modo as diferentes representações do espaço revelam as dinâmicas sociais, complementares ou conflituosas, presentes nele?

Não costumo pensar o espaço/território a partir desta dicotomia centro-periferia, vários autores já apontam ser uma categoria ultrapassada para dar conta da complexidade de camadas e pautas que se costuram nos tecidos territoriais, tanto físicos quanto virtuais na nossa condição pós-moderna. A minha indagação para este binômio centro-periferia mora em nos questionar: a partir de quais referências, repertórios e vivências estamos considerando o centro?

Joaquim Torres Garcia, "América Invertida", 1943.
Joaquim Torres Garcia, “América Invertida”, 1943.

A possibilidade que a cartografia social, os mapas de artistas ou os mapas afetivos nos dá é exatamente o movimento de contrapor o oficializado, hegemônico e normatizado. O ato de criar novas legendas ou convenções e mesmo de qual referencial geográfico estamos nos pautando. A gravura “América Invertida”, do artista Joaquim Torres Garcia, nos coloca esta questão de forma categórica ao inverter o mapa e questionar a concepção universal e eurocêntrica difundida como a única forma de olhar o mundo. Somos dominados o tempo todo pelos mapas. A internet e as ferramentas de georreferenciamento colocaram o mapa em nossas vidas de forma visceral e dependente. 

Para ilustrar melhor essas questões, podemos tomar como exemplo um mapa com dados sobre a violência no extremo sul de São Paulo em contraponto a uma cartografia cultural do mesmo local. Comparando os dois mapas teremos registros completamente diferentes, pois as finalidades dos mapas são diferentes, mas são complementares. 

Ou seja, mesmo em um lugar de índices de pobreza e violência elevados não significa que estes territórios não contemplem práticas de sociabilidade e trocas culturais. Eles estão coabitando estes mesmos espaços, ora em conflito, ora em celebração. É importante ressaltar que se complementam e qualificam o nosso olhar e as nossas leituras sobre um mesmo território e isso é fundamental para pensarmos políticas públicas e isso tem sido estratégias de movimentos sociais para refletirem sobre suas representatividades e visibilidades para reivindicar ações nos seus territórios.  


Em sua opinião, como esse trabalho com representação espacial e memória pode contribuir para a educação que valorize a diversidade e entenda o espaço público como possibilidades de aprendizagem e construção democrática?

A cartografia afetiva é um processo de compreensão do cartógrafo (autor do mapa) sobre o mundo que lhe circunda, o exercício de se colocar no mapa e refletir sobre seu lugar neste mapa que remete pensar sua representatividade identitária, de gênero, raça, etnia, seu conhecimento sobre seu espaço e redes e a questionar a própria produção do espaço público a que tem acesso e de quais circuitos está excluído. 

Um projeto muito bacana para ilustrar esta questão é o Projeto Quebrada Maps, desenvolvido e implementado por professores de Geografia e estudantes do Ensino Fundamental e Médio da rede pública em São Paulo. Eles trabalham o ensino da cartografia a partir dos mapas construídos pelos próprios alunos a partir de dispositivos digitais de suas regiões. O trabalho desperta uma grande consciência crítica sobre a condição dos espaços em que estão inseridos, simulacros, as desigualdades socioespaciais dentre outros aspectos.

Mapa coletivo em trabalho de campo. Foto: Thais Cerqueira, 2017/Quebrada Maps

Portanto, acredito que a educação cartográfica pautada por uma proposta crítica à construção dos espaços públicos seja fundamental para a formação, a sociabilidade e a construção de redes por cidades mais democráticas, menos patriarcais, machistas, racistas e homofóbicas.


Pode contar alguns trabalhos com mapas afetivos que você tem desenvolvido?

Venho acumulando diversas experiências afetivas e profissionais desde 1999 nas periferias de cidades brasileiras, principalmente em São Paulo, quando comecei a trabalhar com temas relacionados ao urbanismo, a partir de ações concretas e participativas de urbanização de favelas, planejamento urbano e habitação de interesse social. Já no meio rural, participei de experiências de construção de agrovilas, habitação no meio rural e formação de mutirões de construção, como assessora do Movimento Sem Terra (MST). Em busca de um mergulho mais profundo na relação entre território e cultura, ampliei meus estudos e trabalhos para investigações relacionadas a mapeamentos socioculturais, formação em arte e cultura, gestão cultural e políticas culturais. Nessas novas imersões, três experiências foram fundamentais para o resultado dessa dissertação.

Brasil Periferia(s): a comunicação insurgente do Hip-Hop. Andréia Moassab. Educ. São Paulo, 2011.
Andréia Moassab. Educ. São Paulo, 2011.

A primeira foi o acompanhamento como assistente de pesquisa de campo da tese de doutoramento de Andréia Moassab, referente à comunicação insurgente do hip hop. Esta pesquisa originou o livro Brasil Periferia(s): a comunicação insurgente do Hip-Hop.

Acompanhei entrevistas, reuniões, eventos, rinhas de MCs e conheci muitos outros grupos da zona sul que se organizavam no campo da arte e da cultura. Organizamos atividades com os grupos como cursos de elaboração de projetos culturais, produção e gestão culturais. Essas ações consolidaram uma parceria entre pesquisadoras e grupos, originando o “Grupo Microfísica da Resistência”, de caráter experimental e interdisciplinar, que tinha como proposta criar espaços de troca de experiências e projetos que pudessem transcender fronteiras físicas, sociais e culturais pela cidade. 

A segunda experiência foi como educadora sociocultural, desde 2007, nas bordas da cidade de São Paulo e outros municípios. Denomino-me como uma educadora sociocultural, pois as formações que pude desenvolver foram demandas que partiram do próprio campo, por meio dos coletivos culturais e do diálogo com gestores de espaços culturais e entidades sociais, resultando em propostas diversificadas e de grande abrangência como artes visuais, figurino, cenário, mediação cultural, elaboração de projetos culturais, produção cultural, gestão cultural, políticas de cultura, intervenções artísticas no espaço urbano, entre outros. 

Desta forma, foi possível mapear um perfil sociocultural diversificado dos alunos que frequentaram os cursos nos diversos bairros periféricos da cidade de São Paulo, revelando particularidades territoriais que determinavam as características dos públicos atendidos. Os espaços onde os cursos aconteceram foram um tanto incomuns: desde Oficinas Culturais do Estado de São Paulo, Centro de Educação Unificada (CEU), Casas de Cultura Municipais e bibliotecas, até sedes de coletivos, movimentos culturais, de moradia, entidades sociais e culturais, creches, garagens, padaria, salão paroquial, conjuntos habitacionais, associações de moradores e outros espaços que se configuraram como opções para ampliar a formação sociocultural nas regiões. 

Trabalho de Maracélia Ramos Teixeira em Santo Amaro em Rede: Culturas de Convivência
Trabalho de Maracélia Ramos Teixeira em Santo Amaro em Rede: Culturas de Convivência

A terceira experiência foi a participação na pesquisa do mapeamento sociocultural do extremo sul zona sul da cidade de São Paulo, intitulada “Santo Amaro em Rede: Culturas de Convivência”. O trabalho foi desenvolvido com equipe interdisciplinar pelo Instituto Pólis, por encomenda do SESC-SP, com minha concepção e coordenação executiva, entre 2008 e 2011.  Ele consiste em um mapeamento das dinâmicas socioculturais da região sul da Grande São Paulo e alguns municípios adjacentes.

Seus objetivos eram conhecer o território mais amplo em que o Sesc Santo Amaro se insere, identificar as dinâmicas socioculturais que ali acontecem, conhecer seus protagonistas e suas interações com o território. Além da visualização da diversidade de práticas culturais no território, o mapeamento abordou alguns assuntos de forma quantitativa, como atuações secundárias das práticas; formalização; públicos das dinâmicas socioculturais; articulações em redes e fóruns; fontes de recursos; principais dificuldades; divulgação dos trabalhos; relação com outros atores sociais no território. 

Com relação às percepções dos mapeados, foram abordados, de forma qualitativa, os seguintes temas: arte e cultura na zona sul de São Paulo; problemas sociais: violência, discriminação e desemprego; meio ambiente; cultura de paz e direitos humanos. Em linhas gerais, o mapeamento levantou mais de 1.500 dinâmicas socioculturais, das quais 323 foram mapeadas. Destas, 290 se constituíram por grupos (coletivos, entidades e associações) e 33 por indivíduos (artistas) (DO VAL, A. P.; PEREIRA, A. B., 2010).


Anna Bella Geiger, “Brasil Nativo/Brasil Alienígena” (1977)

Mapas na arte: questionando a noção de fronteiras geográficas 

Em suas obras, a artista plástica Anna Bella Geiger utiliza a cartografia para questionar a noção de territórios culturais baseados em fronteiras geográficas.

Em um de seus trabalhos mais emblemáticos, “Brasil Nativo/Brasil Alienígena” (1977), a artista dispõe cartões-postais com cenas da vida indígena em meio a retratos de sua vida cotidiana, como forma de pensar a cultura brasileira como resultado de tensões, continuidades e descontinuidades, e negar uma unidade cultural orgânica, problematizando as delimitações (culturais, políticas, sociais) indiciadas por fronteiras e limites. 


Referências da entrevista

DO VAL, A. P.; PEREIRA, A. B. . Relatório Mapeamento: Santo Amaro em Rede – Culturas de Convivência – SESC/SP. 2010 (Relatório de pesquisa).
JACQUES, P. B. (Org.). Apologia da deriva: escritos situacionistas sobre a cidade. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2003.
ROLNIK, S. Cartografia sentimental: transformações contemporâneas do desejo. São Paulo: Estação Liberdade, 1989.
SANTOS; R. E. Ativismos cartográficos: notas sobre formas e usos da representação espacial e jogos de poder. Revista Geográfica de América Central. Costa Rica, 2011. Número Especial EGA. pp. 1-17.
SILVA, R. H. A. Cartografias urbanas: construindo uma metodologia de apreensão dos usos e apropriações dos espaços da cidade. Visões Urbanas – Cadernos PPG-AU/UFBA. Volume I. Número Especial. 2008.

Saiba mais sobre essa artista e sua obra na Enciclopédia Itaú Cultural


Veja também

Ana Paula do Val – Mapeamentos culturais e cartografias afetivas (2016)

Caderno Sesc_Videobrasil 09: Geografias em movimento  

Sobre a entrevistada

Ana Paula do Val é mestra em Estudos Culturais pela Universidade de São Paulo (EACH-USP) e em Cultura e Comunicação pela Universidade Paris VIII, França, é graduada em Arquitetura e Urbanismo pela Fundação Armando Álvares Penteado (Faap) e em Artes Plásticas pela Schule Belletristik, Alemanha. Trabalhou em diversos projetos desde 1999 voltados ao planejamento urbano e rural, habitacional, projetos participativos, economia solidária, planos diretores, assessoria técnica e planejamento territorial aos movimentos de moradia urbanos e rurais. Atuou como gestora pública nas áreas de habitação e planejamento urbano nos municípios de Guarulhos e Taboão da Serra (SP), coordenando processos de urbanização em assentamentos precários e mobilização social a partir da mediação sociocultural.

É coautora da publicação Cultura e participação: a experiência da III Conferência Municipal de Cultura de São Paulo e Políticas Públicas de Cultura. Atualmente é pesquisadora e docente do MALOCA – Grupo de Pesquisas Multidisciplinares em Arquitetura e Urbanismos do Sul (UNILA-PR) e pesquisadora colaboradora do núcleo de desenvolvimento do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap). 


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